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quinta-feira, outubro 07, 2004

Sofrendo na Terra 

Tenho assistido com interesse a um debate entre a malta amiga lá da terra sobre o atributo de Deus que mais engulhos nos causa a nós crentes: a omnipotência divina.
Realmente, partindo-se duma premissa basilar da Fé, a de que Deus nosso Pai é Bom e quer o Bem, o nosso Bem, é verdadeiramente difícil perceber como conciliar o conceito de omnipotência, decorrente do entendimento de Deus como criador e senhor do Universo, com a ocorrência do sofrimento humano, aos níveis aterradores que conhecemos do passado e do presente. No fim, a questão é de como é que sendo Deus o Bem imanente e omnipotente, é então possível o Mal?
A fé dos homens tem percorrido veredas sem fim à procura duma resposta. Há a tentação dualista, de considerar que há um Deus da Luz e um Deus das Trevas, numa luta cósmica onde o homem pode e deve ter um papel simultaneamente fundamental e sacrificial. Há quem ponha simplesmente em causa o atributo da omnipotência, desenvolvendo até, como o meu amigo Timshel, um conceito de omni(m)potência divina e procurando achar um fio na meada das causalidades sucessivas. E há aqueles que, tal como S.Tomás de Aquino e Nicolau de Cusa, conseguem viver bem com a absoluta incognoscibilidade de Deus e dos seus desígnios, se é que os tem. Falei já (no penúltimo post) e voltarei a falar daquele extraordinário artigo de frei Bento Domingues onde ele cita Tomás: “De Deus sabemos sobretudo o que Ele não é. O que Ele é, permanece para nós totalmente desconhecido. Por isso, estamos unidos a Deus como a um desconhecido”. São estes que nos momentos duros nos consolam dizendo aquela frase terrível: os desígnios de Deus são insondáveis! Tanta gente se tem revoltado contra a fé e contra Deus ao ouvir isto. Pois se não se pode conhecer o que Ele quer, para quê acreditar nele?

E eu, que penso no meio disto tudo? É bem certo que convivo bem com a incognoscibilidade última de Deus. Nunca me atraíram os excessos de teologia ou as aproximações gnósticas ou cabalísticas. Eu acredito no que nos conta Mateus: Bem aventurados os puros de coração pois verão a Deus. Mas não nesta vida, certamente, mas sim na outra, quando regressarem a Ele. Aí sim, espero ser digno de poder vê-Lo tal qual Ele é, signifique isto o que significar. Até lá, não tenho grandes veleidades em saber o que Ele quer para mim mas talvez sim discernir o que Ele quer em mim e o que Ele quer de mim.
Agora, quanto à injusta repartição do sofimento humano, estou hoje como Job acabou por ficar: de joelhos. Já aqui falei muitas vezes como sinto Deus como Pai e como isso invade a minha visão da relação entre nós e ele. Se há coisa no mundo que gosto é de ser pai, também. E por isso acho que, como eu, Deus se compraz na nossa semelhança consigo. Como eu, Deus não nos quer na redoma dum Éden e quer-nos livres para realizarmos plenamente a nossa condição humana. E o preço da liberdade é o risco e o sofrimento. Sofrimento que, todavia, pode ser tanto que mata essa liberdade, quando é suficiente para nos destruír a condição humana que Ele nos deu.
E aí está o meu ponto: não há para mim maior sofrimento que o sofrimento dos meus filhos. Mas muitas vezes não posso nem devo aliviá-los duma carga que eles tem de aprender a suportar para assim virem a ser verdadeiramente humanos. Ora, por analogia, tenho para mim que deve ser também assim com Deus, que Ele sofre também connosco. E que a manifestação da sua Graça não precisa de ser mais do que uma inspiração sobre como enfrentar esse sofrimento por forma a que ele não nos destrua enquanto seres humanos mas antes nos faça crescer e aproximar-nos Dele.
Mas, perguntar-me-ão, e quanto ao sofrimento absoluto? O sofrimento dos de Darfur, dos que perdem os filhos por não terem com que lhes dar de comer? Sinceramente não sei como se pode manifestar aí a graça de Deus. Talvez através de coisas minúsculas, a que aqui não damos valor, como o dar a mão a quem a estende, como chorar as lágrimas de uma mesma dor, como oferecer a vida a quem verdadeiramente nunca a teve. Tudo coisas pequenas que nós aqui, que nos revoltamos tão confortavelmente perante a impassibilidade de Deus, nós mesmos é que as podíamos fazer. Podíamos não: devemos fazer.
E eis talvez aqui a minha resposta ao problema do sofrimento humano: Deus que sofre connosco só pode acorrer ao sofrimento do mundo através dos que aqui estão – nós próprios. E é da nossa própria impassibilidade, indiferença e até crueldade, que nos devemos queixar, não da de Deus nosso Pai.
Afinal, já somos crescidinhos.

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