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terça-feira, novembro 16, 2004

KKK 

Não é do Klu Klux Klan, esse bando de pérfidos invocadores da Cruz, de que venho falar. É de algo muito mais ameno.
Desde que conheço o Fernando Macedo e com ele converso sobre a Fé que partilhamos, verifiquei uma coisa curiosa: de forma recorrente e sistemática, ele cita, invoca, evoca, a propósito de quase tudo, um livro. Não um livro sagrado mas um livro profano, russo, novecentista, de Dostoievski: Os Irmãos Karamazov. Desde os meus 18 anitos, em que recuperando de um acidente de moto, despachei dum trago quase todo o Tolstoi, não tenho contactado muito a literatura russa. Não é que não tenha gostado, muito pelo contrário. A “Guerra e Paz” que nunca mais reli, ficou como um dos livros da minha vida do qual, passados 20 anos me lembro ainda de quase tudo. Mas tive então a minha overdose de literatura russa e a ela não mais voltei.
Eis senão quando o Fernando e as suas citações acabaram por me convencer a voltar àquele estranho universo russo e lá comprei os Irmãos. Depois de longos meses em lista de espera, já durante as férias de Verão, lá comecei a ler o primeiro dos dois volumes. E fiquei inevitavelmente embatucado, embasbacado, maravilhado com o raio do livro. Com o estilo coloquial de Dostoievski, com a sua verve exótica, com a sua religiosidade torturada e torturante, com a sua profunda humanidade. E, sobretudo, com a fascinante personalidade de Dostoievski que está lá espalhada por quase todas as personagens do livro. Disse Alberto Moravia: “Qual a razão porque sentimos que o romance de Dostoievski é mais moderno, por exemplo, que o de Tolstoi? Porque os personagens de Tolstoi quase nunca são o próprio Tolstoi, enquanto os personagens de Dostoievski são quase sempre o próprio Dostoievski. Por outras palavras, interessamo-nos mais pelo escritor que pelas suas criaturas. Procurar-se-ia inútilmente em Dostoievski a descrição completa duma sociedade como em Guerra e Paz. O grande problema para ele é o de dar consistência humana aos seus mais misteriosos e contraditórios instintos”.
E é assim de facto: se olharmos bem para os três irmãos Karamazov, Mítia, Ivan e Aliocha, veremos que são como que faces do mesmo triângulo isósceles. São imensamente diferentes mas são verdadeiramente iguais entre si e iguais àquilo que se pressente ser o autor. Mesmo numa das mais abjectas personagens do livro, o criado Smerdiakov, encontramos um ponto em comum com a pessoa de Dostoievski. Um ponto não irrelevante: a epilepsia, o mal caduco. Encontramos esse e adivinhamos outros mais.
E além da personalidade de Dostoievski, nos Irmãos encontra-se também a sua Fé, o seu cristianismo. Um cristianismo diferente de tudo o que tinha visto até agora, um cristianismo que transcende Igrejas, um cristianismo radical na sua coerência mas também na sua incoerência. Um cristianismo torturado mas também beatífico. Senti e sinto em Dostoievski um homem que quis crescer na sua Fé confrontando-se com as contradições originais desta, confrontando-se com a impossibilidade de a viver plenamente. Olhamos os personagens, de Zóssima, o justo entre os justos, para Fiódor Karamazov, o pecador irredutível, e sente-se um continuum entre os dois, sente-se a mesma identificação com ambos. Enfim, revi nos Irmãos muito daquilo em que acredito e muito daquilo que penso sobre o que acredito.
Mas vamos ao que interessa, o Fernando Macedo, eu, também o Carlos e outros camaradas da Terra da Alegria, achámos que seria interessante fazermos nos nossos blogues respectivos uma leitura partilhada deste livro espantoso. À luz da nossa Fé, mas sobretudo e como irão perceber, para a iluminar. Este post é pois um pontapé de saída, embora não anunciado. Estes meus amigos não me irão certamente deixar ficar mal. Vamos pois a isso, assim haja o raio do tempo!


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