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segunda-feira, dezembro 06, 2004

Adaptado 

Estai preparados, dizia um cartaz pendurado junto ao altar na missa de ontem. Eis aí uma mensagem adventícia que me irrita. Não pelo seu significado teológico, obviamente, mas por razões minhas.
Estar preparado. Para tudo. Foi uma decisão que tomei em fins da minha adolescência. Foi uma decisão estruturante. E, vejo-o hoje, foi uma decisão irreparável. Uma decisão que me tomou senhor do meu caminho mas que me fez escravo da circunstância. Já explico.
Vigiai. E tenho vigiado sempre. Vigio o que me rodeia. Vigio os que me rodeiam. Vigio as oportunidades e as ameaças tentando distingui-las. Vigio a expressão do olhar, a entoação do falar da pessoa à minha frente, tentando sempre prescrutar o que lá vai por detrás. Vigio os acontecimentos à minha volta, tentando sempre descortinar neles um padrão que me permita antecipar o que vem aí. Vigio-me a mim próprio, tentando estar sempre à altura do que me cabe em sorte.
E, obviamente, estou farto. É verdade que isso que decidi me tem trazido uma sensação parecida com a de liberdade, uma sensação de que o que fiz e tenho e dei, tudo isso é fruto de escolhas minhas. Uma sensação de liberdade que foi aumentada ainda pelo facto de o dom da fé me ter permitido de quando em vez oferecê-la à noção de que há uma Vontade superior à minha, à qual penso sujeitar-me de bom grado, como se a minha condição me oferecesse outra alternativa.
Mas vejo hoje que essa liberdade que pensava ter, apenas pelo facto de ser capaz de decidir em cada encruzilhada da vida o caminho que claramente devia seguir, essa liberdade não é verdadeiramente liberdade. O facto de, penso eu, estar preparado para qualquer circunstância, tornou-me escravo, repito, dessa circunstância. Qualquer que ela seja, eu habituei-me a aceitá-la e a agir por forma a tirar o melhor partido dela ou, pelo menos, não ser destruído por ela. E, já se sabe, aquilo que não nos destrói, torna-nos mais fortes, mais preparados, mais predispostos a lidar com a circunstância, qualquer que seja a que se nos apresente.
Circunstância. Eis uma palavra, um conceito, que fiquei a odiar. Tanto a aceitei, a contornei, a utilizei, a manobrei, que hoje estou contido nela, faço dela parte, dela já não sei saír. E essa coisa desagradável aconteceu-me por uma razão simples e meritória: estive sempre preparado.
Daí que neste tempo de Advento, vou reflectir um bocado sobre se é assim tão necessário estarmos preparados para Deus. Como se isso fosse possível. Como se essa preparação, inquinada sempre pelo inefável orgulho humano, não nos fechasse mais em nós mesmos, afastando-nos talvez Dele.
Mas não sei bem. À cautela vou reler o Ecclesiastes...


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