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quarta-feira, dezembro 22, 2004

No Presépio 

Maria

Conversava há uns dias com um amigo protestante, tão ou mais cristão do que eu, mas que acha ser o seu cristianismo diferente do meu, sobre a importância que a figuração do presépio tem entre nós católicos. Falámos de culto de imagens e de iconoclastias. De Erasmo e de Lutero. E por aí adiante. Mas esqueci-me de lhe dizer que é no Presépio, logo aí, que nós católicos, reconhecemos a santidade, melhor dizendo, a sacralidade de Maria. E só hoje me lembrei dum texto obscuro de Sartre (sim, dele mesmo) lido há muito tempo numa crónica de Frei Bento Domingues e que era mais ou menos assim:

«Maria está pálida e olha para o menino com um encantamento ansioso que não apareceu senão uma vez sobre uma figura humana. Porque Cristo é o seu menino: a carne da sua carne, o fruto das suas entranhas. Cresceu nela durante nove meses e Maria dar-lhe-á o seu seio. Por longos momentos, invadida pelo mais forte dos amores humanos, ela esquece que ele é Deus. E aperta-o nos seus braços dizendo 'Meu pequenino’. Mas noutros momentos ela suspende esse movimento e pensa, abismada: Deus está aqui! E fica possuída por um horror religioso, por este Deus mudo, por esta criança terrificante. É certo que todas as mães ficam assim suspensas, por um momento, diante desse fragmento rebelde da sua carne que é o seu filho, e sentem-se em exílio diante dessa vida nova que se fez a partir da sua. Sentem-se então, todas elas, habitadas por pensamentos estranhos. Mas nenhuma criança, porém, foi tão cruelmente e tão rapidamente arrancada à mãe: aquela criança é Deus e ultrapassará sempre tudo o que Maria possa sequer imaginar. Mas há também momentos fugidios, nos quais ela sente que Cristo é seu filho e que ele é Deus. Ao olhar para ele, pensa: ‘este Deus é meu menino. Esta carne divina é a minha carne. Ele é feito de mim, tem os meus olhos e esta forma da sua boca é a forma da minha. Parece-se comigo. Ele é Deus e parece-se comigo!’
Nenhuma mulher teve, desse modo, o seu Deus só para ela, um Deus pequenino que se pode tomar nos braços e cobri-lo de beijos, um Deus quentinho que lhe sorri e que respira, um Deus que ela pode tocar e que lhe ri!»

É por isso mesmo, por ter sido ela a única a quem Deus se entregou tão completamente, deixando-a vê-Lo assim tão absolutamente tal qual Ele é, que nós dizemos que ela é cheia de graça e bendita entre as mulheres.

José

Se Maria aparece poucas vezes mencionada no Evangelho, este meu homónimo aparece ainda menos. E se os católicos vieram a dedicar a Maria uma devoção verdadeiramente religiosa, já o bom José aparece em bem poucos altares e é lembrado com um respeito bem discreto. José é o elo que justifica a profetizada ascendência Davídica de Jesus. José é aquele que não repudiando Maria pela sua inexplicável gestação, permite que Jesus nasça e cresça como um qualquer judeu entre os judeus. É assim que José permite que Ele venha a ser rejeitado por ter vivido como viveu e não por ter nascido como nasceu. A José a vontade de Deus não se revelou como a Maria, através dum anjo resplandescente. Não. A José Deus falou discretamente em sonhos, metáfora certamente duma dolorosa reflexão. E ainda assim, silenciosamente, discretamente, José curva-se à vontade do Pai, para que o Filho encarnado entre nós seja um de nós. A José não coube um papel grandioso no plano divino, coube-lhe sim um papel instrumental. Muito antes de Jesus desafiar os homens a abandonarem tudo para o seguirem, já José abandonou o seu orgulho, que se cola tanto à alma humana. Fala-se tanto do sim de Maria, até lhe chamam a NªSª do Sim, mas a mim impressiona-me mais o sim de José. É esse o sim dos simples, o sim das pessoas como nós, os que procuramos seguir a vontade de Deus sem que esta nos surja com a clareza que gostaríamos, sem que possamos sentir que Lhe fazemos tanta falta assim. É o sim prosaico de quem sacrifica o ego em benefício do dever, de quem ama Deus mesmo em prejuízo do seu amor próprio. No presépio, olhando para a sua amada Maria e para aquele Menino, tão espantoso mas tão frágil, José pensa certamente nas dúvidas passadas e sente que, agora sim, chegou a hora de ser ele o protector Daquele que veio para nos salvar.
Mirem-se pois no exemplo do marido de Maria, pai terreno de Jesus.

O Menino

Nem todos conhecerão a experiência de ter um recém-nascido nos braços, sobretudo de fôr sangue do nosso sangue. Eu tive-a por duas vezes e é algo que nunca esquecerei. Acho que um recém-nascido representa um ponto altíssimo da condição humana: ele é absolutamente frágil o que é um atributo do homem e é absolutamente puro o que é ainda um atributo de Deus. Ao encarnar num recém-nascido, Deus assume a condição humana no momento em que ela ainda não se afastou da semelhança com Ele. Ao encarnar num recém-nascido Deus vem tornar sagrada a condição de todos os recém-nascidos, pois naquele instante Ele foi igual a todos eles, os passados e os futuros. É nesse momento fugaz que Deus veio ser nosso igual. É nesse momento fugaz que nós fomos iguais a ele. É um momento fugaz de unidade de nós com Deus e de Deus connosco.

Bom Natal para todos.

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