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domingo, janeiro 23, 2005

Caviar House ou o bloco sanitário 

Já prometi várias vezes não falar aqui de política. Contrariamente a vários dos meus amigos da Terra da Alegria, eu tenho uma visão cada vez mais minimalista da política. Eu acho que ela, sobretudo a partidária, tem cada vez menos a ver seja com o que fôr. Mas mais uma vez vou aqui quebrar uma promessa pois aparece sempre alguém a tirar-me do sério.
Neste caso tratou-se do inefável Louçã e aquela tremenda tirada no seu debate com Paulo Portas. Quando começaram a terçar armas sobre o aborto, toda a gente pasmou ao ouvir este benemérito cortar a palavra a Portas com uma frase dita num tom esganiçado, semelhante ao duma daquelas tias do Juntos pela Vida: “Não me fale de vida, não tem direito a falar de vida!" Só faltou o por amor de Deus! E porque não? perguntou Portas, começando a desabar daquela sua pose imperial. E Louçã foi implacável: "O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Não tem a minima ideia do que isso é. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança. Sei o que é gerar uma vida." Portas ficou varado e a conversa ficou por aí, talvez com vantagem para ambos.
Mais tarde assistiu-se à reacção corporativa do Bloco de Esquerda, indigna das suas pretensões libertárias, vindo quase todos a terreiro defender o seu paladino. Luís Fazenda foi um dos que frisou o "contexto" para explicar as afirmações de Louçã, salientando também a "enorme arrogância da direita"! A inteligente Ana Drago diz que o dirigente do BE "acabou por expressar a indignação" que foi já sentido por muitos por serem "atacados como assassinos". Uma tal Helena Pinto defende Louçã acusando Portas de "passar das marcas": "Paulo Portas acusa quem defende a interrupção voluntária da gravidez de defender a morte." E (...) o que Louçã fez foi "usar o seu exemplo pessoal para responder a uma acusação muito grave". Mas melhor que todos, melhor ainda que o próprio Louçã, esteve aquele moço Teixeira Lopes, que veio agravar ainda mais o caso. Segundo este impetuoso mancebo do Porto “há um limiar de hipocrisia muito forte da parte de Paulo Portas, que constrói uma fachada de conservador, de homem de Estado, mas que depois não a leva até às últimas consequências. Ou seja, (...)para ser fiel aos princípios que professa Paulo Portas deveria constituir família e ter filhos”!!! (Citações do Público).
Enfim, honra seja feita a Luís Januário, colega aqui na blogosfera mas candidato por Coimbra e que classificou no blogue onde escreve, as afirmações de Louçã como "uma grosseira utilização da biografia privada do opositor, sem ligação aos temas em debate, e introduzindo um aspecto irrelevante para a bondade dos argumentos." Haja alguém coerente...
O que é giro é que, a partir de agora, o nosso Bloco deixa de ter qualquer autoridade moral ou política para defender a adopção de crianças por homossexuais, pois estes não sabem o que é gerar vida, a partir de agora estes senhores já não podem defender tudo o que possa ameaçar a família tradicional. Ainda bem, rapazes, continuem!
Mas eis sem dúvida um episódio lamentável: pela torpeza tão igual à dos outros partidos menos puros, pela hipocrisia tão cuidadosamente escondida mas que saíu toda ela, numa golfada involuntária mas indisfarçável.
Devo dizer, contudo, que esta cena desta Esquerda Caviar, tão pura e tão cândida, toda ela pureza e limpeza, não me surpreende minimamente. E traz-me longínquas reminiscências passadas de que me apetece hoje falar aqui.
Há já bem mais de 10 anos, ainda não existia o Bloco, comecei a reparar num fenómeno curioso no meio em que me movia e me movo: muitos meninos-família começaram a aproximar-se dum partido que começava a dar nas vistas, o PSR. Como isso aconteceu também ao meu maninho mais novo, interessei-me e resolvi averiguar. Cheguei na altura à conclusão que não era nem o socialismo nem a revolução nem os trabalhadores que atraíam toda aquela juventude, mais ou menos dourada. Aliás, a esmagadora maioria estava-se nas tintas para o trotskismo, nem queria saber o que era esse bicho feio. O que eu penso que verdadeiramente atraía e ainda hoje atrai toda aquela boa gente era e é aquele doce discurso libertário e desresponsabilizante. Numa altura em que pontificava a feíssima geração yuppie, a malta mais nova quis ser um bocado hippie. E onde melhor o ser do que no PSR? Aquilo ficava no Bairro Alto e tudo, a paz e o amor difundia-se pelo fumo dos charros, enfim uma delícia!
Nos episódicos contactos que tive com aquilo deparei com coisas pitorescas e picarescas. Podia contar meia dúzia de episódios mas fico-me por um deles, que acho ser o mais significativo apesar de ter andado um bocado esquecido nos confins da minha memória. Daí um ou outro detalhe impreciso ou omitido. Mas o essencial está lá. Senão vejamos.
Passa-se isto há 11-12 anos, não sei precisar. O meu irmão mais novo, que seguia com calminha o seu curso universitário e andava meio deslumbrado pelo “mundo” alternativo que se sentava à volta da fogueira trotskista, contou-me que 2 ou 3 amigos dele estavam envolvidos numa ocupação dum velho e enorme casarão devoluto para os lados de Benfica. E, movido pela curiosidade, fui com ele uma noite conhecer o misterioso movimento okupa. Cheguei lá, carregado de pizzas e latas de cerveja, e sentei-me um bocado com aquela malta, aí uns 15 rapazes e raparigas, entre os quais reconheci irmãos e primos de amigos meus. Ficou logo claro que o “cota” que eu era podia ali estar apenas por ser irmão de quem era e por ter trazido todas aquelas pizzas. Mas adiante. Pouco ou nada falei mas ouvi muito e passeei um bocado por aquele pardieiro novamente cheio de vida. Foi aliás nessa noite que li pela primeira vez, pintada numa parede, uma frase que resumia já então toda uma atitude perante a vida e o mundo, o célebre “Não te prives”! Fiquei logo ali convencido que dificilmente se podia dizer algo mais monstruosamente egoísta mas aquela malta dizia-o como se fosse o lema de futuros luminosos em que a tolerância e a solidariedade teriam já varrido as injustiças sociais dos nossos tempos.
Ora, precisamente, já passava da meia noite quando pediu ali entrada um grupo de 3 jovens de origem africana: um casalinho aí pelos 15-16 anos, ela em adiantado estado de gravidez, e um rapaz mais velho e muitíssimo magro, aí pelos seus 18 anos. Duma forma quase humilde contaram que tinham fugido das suas casas, em Chelas, e que tendo sabido que aquela casa tinha sido okupada vinham ali pedir um tecto que não sabiam onde mais o arranjar.
Foi então que tive a oportunidade de reparar melhor num rapaz alto e de forte vozeirão, que era sem dúvida o líder e ideólogo daquela operação okupa. Para minha estupefacção e grande embaraço do meu irmão, aquele belo rapaz levantou-se imediatamente e, tomando conta da ocorrência, pôs-se a falar. Disse coisas espantosas: que o movimento okupa era um estilo de vida alternativo, com uma forte matriz ideológica, que a ocupação de casas era uma acção coordenada de afirmação dessa ideologia, que os membros do grupo tinham que ter uma grande afinidade e homogeneidade cultural e ideológica por forma a fazerem os sacrifícios que este modo de vida lhes impunha. E saiu-se com uma pérola inesquecível: “o movimento okupa não se pretende substituír aos planos de realojamento da Câmara de Lisboa”! E logo a seguir, melifluamente, que ali não era o lugar adequado para aqueles três jovens africanos, o que não significava que eles não contassem com a sua total solidariedade! E eles, coitados, lá se levantaram e foram-se dirigindo para fora.
Estava já eu completamente passado com aquilo e disse ao tal grande líder algo mais ou menos assim: “Ó meu cabrão hipócrita, essa conversa da treta da solidariedade e da tolerância não te serve sequer para ajudar quem precisa mesmo de alojamento, muito mais do que estes meninos e meninas que estão aqui só para chatear os ricos paizinhos! Agora o que vou fazer é oferecer 10 contos a estes gajos e dar-lhes uma boleia a uma pensão ou residencial que eles escolham! Bem podes dizer que isso é caridade mas esta caridade vale muito mais que a tua solidariedade de filho da puta!”
Gerou-se um sururu do caraças, tudo aos gritos, fascista, nazi e coisas assim, e o meu irmão empurrou-me dali para fora junto com os três desgraçados. E lá fomos os dois deixá-los na Praça do Chile com os tais 10 contos, o que na altura ainda era dinheiro.
Ora aquele rico menino, tão talentoso e que ficou tão zangado comigo, não desapareceu de circulação. Antes pelo contrário. Estudou, trabalhou e prosperou. E continua hoje, pelos lados do Bloco, a arrotar postas de pescada. Não vou dizer quem ele é, até porque não digo quem eu sou. Mas ele costuma ler os blogues e se vier cá parar, saberá bem do que estou a falar. Quem sabe até me manda um mail!
E, pronto, fico-me por aqui que já estou com a pulsação alta. Mas, ao ver aquela beatice do Louçã, não pude deixar de me lembrar desta cena longínqua. Por causa da qual o Bloco nunca me enganou: para mim eles são o maior logro ideológico e intelectual da política portuguesa e nunca irão ter o meu voto. Mesmo neste triste momento em que me acho moralmente impedido de votar onde sempre votei. Antes no PCP, ou no MRPP, ou até no PP! Ou, mais certo, votando nulo escrevendo frase reaccionária!


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