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domingo, janeiro 16, 2005

The long and winding road 

5 de janeiro
Finito. Completo. Acabado. Concluso. Terminado. Um longo e dolorosíssimo processo. Uma interminável demanda. Um infindável remar contra a maré para quem se julga mais vocacionado para as doces bolinas ao vento. Uma desesperante sucessão de esperanças miríficas alternando com amargas desilusões. Uma angústia persistente e dorida. O reconhecer constante de uma tendência que nos condenava a mim, aos que de mim dependiam e os que em mim confiaram. Um impasse resistente. Janelas abrindo-se mas portas fechando-se. Oportunidades surgidas e imediatamente agarradas, reduzidas logo depois a nada, um nada absoluto e insultuoso. A visão do fim, do fracasso absoluto, tal qual ele é, olhos nos olhos. A descoberta vergonhosa de que, no fundo, já o desejava, num desejo de olvido. E já depois de decidirmos acabar com tudo, eis a última esperança que surge, já sem ninguém acreditar nela. E ainda assim, mergulhar nela de cabeça, e surpreendentemente, ver a praia à nossa frente e, num último esforço, chegar a ela, levantar, correr e chegar ao único destino que nos convinha.
E agora que acabou e que recomeço de novo, ponho-me a pensar. Penso nas longas horas de pensamento solitário. Nas longas conversas. Na observação do evoluír das coisas, sempre de acordo com os meus receios. Na resiliência inesperada que encontrei em mim mesmo e naqueles que estiveram comigo. No desgaste tremendo que foi tudo isto. Naquelas duas vezes em que fui parar ao hospital, quando a quotidiana descarga de adrenalina ultrapassou os limites do meu corpo. Sobretudo numa das duas vezes, a mais recente, quando o meu filho mais velho estava ao meu lado e consegui passá-lo à minha mulher sem ele nada ter percebido. Penso em todo o tempo de mulher e filhos que perdi longe deles. Penso como deve ser grande o amor deles por estarem ainda assim comigo. Penso que, embora inteiro, não passei certamente incólume por tudo isto, embora não saiba ainda bem onde me ficaram as sequelas. Penso que, apesar do sentimento de se estar preso a uma engrenagem, acabei por também me divertir no meio dela. A iminência do desastre excitou-me estranhamente. A coesão, a força de todos nós, orgulhou-me a mim, eu que tanto receio o orgulho. Senti-me vivo, talvez demasiado vivo. Senti-me na merda mas nunca me senti vítima. Nunca me senti abandonado por Deus. Talvez não tenha sido Ele a arranjar a solução; certamente não terá sido pois sei que Ele não cuida destas coisas menores. Mas foi ao longo destes quatro longos e rapidíssimos anos que eu percebi que não tinha que Lhe pedir nada excepto força para aguentar. Aguentar tudo o que viesse a ter. Pois não mereço nunca mais do que isso. E essa força Ele deu-ma. E espero que também me tenha dado a humildade para perceber que, verdadeiramente, tive eu e tivemos todos uma sorte do caraças. Passado todo este tempo sou talvez mais forte do que era antes. Espero também que a minha grimpa que tanto baixou nestes tempos de chumbo, se mantenha baixa. E que eu tenha finalmente percebido aquilo que é verdadeiramente importante.


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