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sexta-feira, janeiro 21, 2005

O fogo e as cinzas 

1ºandamento
Acredito que hajam pessoas que queiram mesmo salvar o mundo, que ofereçam as suas vidas aos outros, que deem mesmo as suas vidas pelo próximo. Acredito como Tomé acreditou: apenas porque já vi pessoas assim. Vi já pessoas a irem para os confins do Mundo ou para os confins dos subúrbios viver com quem nada tem, com quem já nada espera. Vi já pessoas trocarem profissões honrosas por trabalhos que verdadeiramente honram a sua condição de filhos de Deus. Vi essas pessoas escolherem mudar de vida sem esperar sequer vir a conseguir mudar muita coisa, esperando apenas que oferecendo uma boa parte de si possam devolver a dois ou três semelhantes a melhor parte deles próprios. Vi pessoas fazerem opções assim sem exigir quaisquer resultados do seu trabalho, apenas tendo esperança em que eles surjam, apenas porque assim é que deve ser. Vi essas pessoas mudarem, vi-os sofrer como sofrem aqueles a quem se ofereceram, vi alguns tornarem-se tristes por verem finalmente a infinita tristeza no mundo, vi outros mais afortunados, mais fortes talvez, encontrando a exaltação na simples e ignorada grandeza do que estão a fazer. Em todos vi, mesmo na ausência de resultados do seu sacrifício, a consciência, sofrida ou alegre mas sempre tranquila, do enorme sentido do que estão a fazer, da coerência absoluta das suas vidas com aquilo em que acreditam.
Ainda no Expresso da passada semana, no suplemento Única, li uma coisa admirável sobre um grupo de pessoas que fazem um gesto que, neste mundo amoral e cínico, parece ser o gesto mais inútil e gratuito de todos. Estou a falar da associação AMARA, dirigida por uma monja budista portuguesa, e que dedica a sua acção nos cuidados paliativos a doentes terminais. Num mundo em que o ideal da liberdade do próximo é usada como falso pretexto para assegurar a minha comodidade e a minha desresponsabilização, é tocante ver esta alternativa à eutanásia: ajudar a morrer bem, a minorar o sofrimento terminal, a dar-lhe algum sentido. Isso é imensamente mais difícil e menos prático do que ajudar a morrer quem sofre e quer parar de sofrer. Mas, isso sim, é que é verdadeiramente humano pois ajuda o próximo que se finda, ajuda-o a morrer mantendo a sua dignidade até ao fim. E como a dignidade é feita de coragem e de amor, grandes são as pessoas que se mantém ao lado das que vão morrer, que lhes dão a mão até ao fim. E os seus pacientes morrem certamente mais preparados, num movimento de aceitação e não de desistência, de esperança e não de desespero, num momento acompanhado e não solitário. Num mundo que procura esquecer a morte, a ponto que fica abismado quando ela surge de rompante e em força, num mundo que dá tanto valor ao irrevogável direito de nascer bem, crescer bem e viver bem, é bom ver que há ainda gente que sabe também do direito de morrer bem e que age em conformidade.

2ºandamento
Se eu fosse de me revoltar, revoltar-me-ia o contraste entre tudo isto e a palhaçada ficcional deste momento político, em que as diferenças apregoadas são meros arranques de retórica de almanaque, em que todos nós só queremos acreditar e admitir aquilo que nos convém a nós próprios, a cada um de nós, mesmo sabendo da inutilidade da opção em que no fundo, todos nós pretendemos outorgar a terceiros, de preferência virtuais, como virtual é o Estado, as nossas obrigações de seres humanos, filhos de Deus e irmãos de outros seres humanos como nós.
Mas não me revolto, até porque reconheço também a minha incapacidade de ser como essas pessoas de que falei acima. Por isso finjo às vezes que acredito de que há por aí um grupo, uma organização, capaz de nos governar a todos, sobretudo aos que mais precisam. Mas desta vez não vou fingir acreditar naquilo em que não acredito. Desta vez vou deixá-los a gritar sozinhos, alvoraçados pela ilusão da sua própria oratória. Desta vez ficarei em casa. E talvez seja isso um pequeno passo para um dia eu mudar de vida, eu que não gosto de me privar, eu que exijo sempre resultados dos meus esforços. Talvez um passo para um dia, sabendo que tudo nos é permitido mas nem tudo nos convém, eu venha a fazer pelas minhas prórias mãos aquilo que mais convém ao Outro e aos outros.
Queira Deus.

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