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segunda-feira, janeiro 03, 2005

Restart 

Volto dumas (afinal) imerecidas férias, em que me abstraí das minhas dôres e infelizmente me abstraí também das grandes dôres que atravessaram o mundo. Pegando de novo nesta coisa, começou por me apetecer apagar o último post que aqui deixei, era ainda 23 de Dezembro. Só não o fiz por rigoroso princípio editorial deste blogue.
Mas o facto é que aquela frase, escrita tão ingenuamente num cartão de boas festas, colide chocantemente com o que se passou uns dias depois e com o que tenho lido por aí sobre a associação desta catátrofe de dimensões bíblicas à inefável questão da existência ou inexistência de Divindade, questão sempre tão atiçada nos momentos em que se deve discutir antes a existência de humanidade nos nossos corações.
Mas acabei por ler coisas bem ditas: no Expresso a habitualmente caprichosa Clara Ferreira Alves (link indisponível) e na blogosfera um grande, grande post do alerta amarelo, que diz tudo o que havia a dizer sobre o Deus dos maremotos.
Lendo a Clara, perguntando porque é que durante toda uma semana se falou muito mais de Phuket, onde os cerca de 5.000 mortos eram em boa parte turistas cá da boa e velha Europa, do que da catástrofe, essa assim espantosamente imensa, da zona remota e insalubre de Aceh; e lendo o Afonso dizendo que quanto mais afastados andam os homens mais longe andam de Deus; lendo tudo isso, recordo umas páginas bem actuais de Eça de Queiroz sobre “As catástrofes e as leis da emoção”:

«Meus caros leitores, (...) este nosso velho Mundo tem sido visitado por males inumeráveis, uns trazidos pelas violências da natureza, outros pela violência dos homens, porque o consciente e o inconsciente rivalizaram, como sempre na produção da dôr.
No Japão foi um desses pavorosos “macaréus”, que tanto assustavam os nossos navegadores do séc.XVI, invadindo em desmedido vagalhão léguas de costa e lambendo aldeias, cidades, centenas de milhares de criaturas, como se fossem apenas conchas e areia leve.(...) Mas eu não sei, meus amigos, se estas desgraças vos interessam, vos comovem – porque a distância actua sobre a emoção exactamente como actua sobre o som. A mesma dura lei física rege desgraçadamente a acústica e a sensibilidade.(...) Mas então essa fraternidade humana, pela sublime força da qual nada do que é humano deve ser alheio ao homem? Não existe? Oh, certamente – mas para todo o homem, mesmo o mais culto, a humanidade consiste essencialmente naquela porção de homens que residem no seu bairro. Todos os outros, à maneira que se afastam desse centro privilegiado, se vão gradualmente desarmonizando em relação ao seu sentimento, de sorte que os mais remotos já quase os não distinguem da Natureza inanimada


(in Bilhetes de Paris)

Passam os séculos e ficamos na mesma. E dizem que a culpa é de Deus...


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