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terça-feira, fevereiro 15, 2005

A primeira tentação de Cristo 

Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães.» Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» Então, o diabo conduziu o à cidade santa e, colocando o sobre o pináculo do templo, disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles suster-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra.» Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!» Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Então, o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no.
(Mateus 4, 1-11)

No primeiro Domingo da Quaresma a Igreja ofereceu-nos a narrativa das tentações de Cristo. Já há coisa de um ano, no Guia, falei sobre elas e continuo a achar o que então disse: que este episódio é absolutamente central para a compreensão do carácter único da mensagem de Cristo mas também da Sua natureza, humana mas divina, divina mas humana. Ao iniciar a sua vida pública que vai desembocar na Paixão, Cristo Filho de Deus é tentado a exercer as suas prorrogativas divinas. Não o faz. Assume plenamente a sua condição humana, coloca-se irremediavelmente ao nosso nível. Será assim até ao momento da sua morte na Cruz. A sua oferta de Si próprio começou logo aqui.
Tenho pois para mim que o episódio das tentações é essencialmente a confrontação de Jesus com a sua dupla natureza, humana e divina. É nesse episódio que Jesus resolve esta questão duma forma quase definitiva: mantendo sempre a consciência da sua relação com Deus aceita sujeitar-se às contingências e leis humanas por forma a que se cumprisse a sua missão na Terra.
Voltando ao episódio, eu penso que o Diabo (seja o que isso fôr!), consciente dessa dualidade entre a profunda divindade e a profunda humanidade de Cristo, tenta-O por forma a destruir o equilíbrio dessa dualidade. Isto é, com uma mão relembra a Jesus as suas necessidades e anseios de homem e com a outra acena-lhe com a Sua omnipotência divina. E propõe a Jesus pôr esta ao serviço daquelas por forma a negar a Deus o propósito último da encarnação do Seu Filho. O Diabo (seja o que isso fôr!) mostra ao homem Jesus todos os reinos do mundo e diz-lhe que está ao alcance da Sua natureza ser Senhor de todos eles, parecer ser Ele o Deus e não o Filho de Deus, qualidade essa com que foi nos enviado. Dir-se-ia, e perdoem-me a ligeireza, que o Diabo (seja o que isso fôr!) quis também lançar a desordem na Trindade Divina. Ou, o que é exactamente o mesmo, quis cindir a Unidade Divina. E, recusando ceder, Cristo mostra-nos verdadeiramente que veio exclusivamente para cumprir a vontade do Pai. E foi o que fez.
Esta tentação do parecer, parecer Deus, é verdadeiramente a mais perigosa para o Homem. É ela o pecado original, pelo qual Adão e Eva foram simbolicamente punidos. Cristo, consubstancial a Deus, conseguiu resistir-lhe. Por maioria de razões nós, simples criaturas Dele, devemos também consegui-lo.


Mas agora, antecipando-me um pouco a um projecto comum com os meus amigos da Terra da Alegria, vou fazer uma trancrição dum excerto dos Irmãos Karamazov de Dostoiévski, em que este pela voz do terrível Grande Inquisidor, fala, como nunca ouvi ninguém falar, das tentações de Cristo. E o que ele diz di-Lo ao próprio Jesus que, tendo reencarnado em Sevilha do séc. XVI, começando de novo a oferecer a Sua Luz, é logo apanhado pelas garras da Inquisição e levado ao seu chefe que o interroga num longuíssimo e perturbante monólogo. E é um pouco disso que vos ofereço hoje. Leiam que vale a pena:

«O Espírito terrível e profundo, o Espírito da destruição e do nada – continua ele – falou-Te no deserto e contam as Escrituras que Te "tentou". É verdade? E podiam ter-Te dito alguma coisa de mais penetrante que as três perguntas, ou, para falar como as Escrituras, as "tentações" que repeliste? Se jamais houve na Terra um milagre autêntico e retumbante, foi no dia dessas três tentações. Basta o fato de se terem formulado as três perguntas para que haja o milagre. Suponhamos que desapareciam das Escrituras, que era preciso reconstitui-las, imaginá-las de novo para as pôr lá outra vez,(...) porque resumem e predizem ao mesmo tempo toda a história posterior da humanidade; são as três formas em que se cristalizam todas as contradições insolúveis da natureza humana.(...)
Lembra-Te da primeira, pelo menos do sentido: querer ir pelo mundo com as mãos vazias, a pregar aos homens uma liberdade que a sua estupidez e a sua ignomínia natural os impedem de compreender, uma liberdade que lhes faz medo,(...) Vês estas pedras neste árido deserto? Transforma-as em pães e a humanidade seguirá os Teus passos, como um rebanho dócil e reconhecido, mas sempre com medo que a Tua mão se retire e que o pão se lhe acabe. Mas não quiseste privar o homem da liberdade e recusaste, achando que ele era incompatível com a obediência comprada como os pães. Replicaste que o homem não vive só de pão;(...) Hão-de passar os séculos e a humanidade proclamará, pela boca dos seus homens de ciência e dos seus sábios, que não há crimes e que, por conseguinte, não há pecados: só há famintos. "Alimenta-os e só depois podes exigir que sejam virtuosos!"(...) É este o sentido da primeira pergunta que Te fizeram no deserto e foi isto o que Tu repeliste em nome da liberdade que punhas acima de tudo. Continha, no entanto, o segredo do mundo. Se tivesses consentido no milagre dos pães, terias acalmado a eterna inquietação da humanidade – indivíduos e coletividade – "diante de quem se inclinar?" Porque não há para o homem que ficou livre cuidado mais constante e mais doloroso do que o de procurar um ser diante do qual se incline. Mas não quer inclinar-se senão diante de uma força incontestada, que todos os seres humanos respeitam por um consentimento universal.(...), não podias ignorar este segredo fundamental da natureza humana e, contudo, repeliste a única bandeira infalível que Te ofereciam e que teria curvado, sem contestação, todos os homens diante de Ti, a bandeira do pão terrestre; repeliste-a em nome do pão celeste e da liberdade! Vê o que fizeste depois, e sempre em nome da liberdade!(...) Em lugar de Te apoderares da liberdade humana, foste alargá-la ainda mais!(...)
Há três forças, as únicas que podem subjugar para sempre a consciência destes fracos revoltados: são o milagre, o mistério, a autoridade! A todas três afastaste, dando assim um exemplo. O Espírito terrível e fecundo transportara-Te ao pináculo do templo e dissera-Te: "Queres Tu saber se és Filho de Deus? Atira-Te abaixo, porque está escrito que os anjos O hão-de sustentar e segurar e não Se ferirá; ficarás então a saber se és o Filho de Deus e provarás assim a Tua Fé em Teu Pai." Mas repeliste a proposta e não Te precipitaste. Mostraste nessa altura uma altivez sublime, divina, mas os homens, raça fraca e revoltada, não são deuses! Sabias que, se desses um passo, se fizesses um gesto para Te precipitares, terias tentado o Senhor e perdido a Fé que n'Ele tinhas. Com grande alegria do tentador, ter-Te-ias despedaçado na Terra que vinhas salvar. Mas haverá muitos como Tu? Podes admitir por um instante que os homens teriam a força de resistir a semelhante tentação? É próprio da natureza humana repelir o milagre e, nos momentos graves da vida, perante as questões capitais e dolorosas, entregar-se à livre decisão do espírito? Oh! Tu sabias que a Tua firmeza seria relatada nas Escrituras, atravessaria as idades, atingiria as regiões mais longínquas, e esperavas que, seguindo o Teu exemplo, o homem se contentasse com Deus, sem recorrer ao milagre. Mas ignoravas que o homem repele Deus ao mesmo tempo que o milagre, porque é sobretudo o milagre o que ele busca.(...) . Não desceste da cruz quando zombavam de Ti e Te gritavam por troça: "Desce da cruz e acreditaremos em Ti." Não o fizeste, porque não querias escravizar de novo o homem com um milagre; desejavas uma fé que fosse livre e não inspirada pelo maravilhoso. Era-Te necessário um livre amor, não os transportes dum escravo aterrado. Ainda aí fazias uma ideia elevada dos homens, porque são escravos, embora tenham sido criados rebeldes.(...)
No entanto, poderias ter empunhado o gládio de César. Por que motivo afastaste esta última dádiva? Se seguisses o terceiro conselho do poderoso Espírito, realizarias tudo o que os homens procuram na Terra: um senhor diante de quem se inclinem, um guarda da consciência e o meio de finalmente se unirem em concórdia num formigueiro comum, porque a necessidade da união universal é o terceiro e último tormento da raça humana. (...) Aceitando a púrpura de César, terias fundado o império universal e dado a paz ao mundo. Com efeito, quem pode dominar os homens senão aqueles que lhes dominam a consciência e dispõem do pão?(...)»

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