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quinta-feira, março 31, 2005

Mar adentro, borda fora 

Não gosto muito de falar da eutanásia. Sou contra no plano da fé, da moral e, naturalmente, da teoria. Ainda há uns tempos falava aqui da AMARA, uma associação de promoção de cuidados paliativos a doentes terminais, e dizia eu que aí é que está a verdadeira solidariedade, amor e respeito pelo sofrimento do outro. Fui então interpelado por uma leitora amiga que me contou da sua dolorosa experiência pessoal, a qual, no brutal campo da prática, lhe pôs em causa as convicções que ela tinha sobre a eutanásia. E contou-me também sobre a existência de algo que eu nem fazia ideia que existia: a sedação terminal, que «tanto quanto tenho pensado no assunto é uma espécie de eutanásia. Retira a consciência, é induzido uma espécie de coma e é irreversível. Também apressa a morte. É a morte antes da morte. Ele foi sedado e nunca mais falou connosco. Ainda viveu dois dias. Talvez ouvisse, não sei».
Naturalmente eu também não soube o que lhe dizer. Até porque ela e a sua história pessoal tornaram menos firmes as ideias que tenho sobre isto. E maiores as dificuldades em julgar os casos em que estas decisões são tomadas. Como o é este caso da americana Terri Schiavo, que morreu hoje de fome e de sede.
Pelo que pude perceber, ela estava em coma apesar de manifestar alguma reactividade aos impulsos exteriores. Parece que não sofria nem estava ligada a meios artificiais de prolongamento da vida que não fosse a alimentação e hidratação por via de um tubo gástrico (corr.). Não seria assim, tecnicamente, um caso de eutanásia. É o que dizem, pelo menos. Assim sendo, sinceramente não vejo as vantagens de porem termo à sua vida, que existia ainda na sua face, ainda que não existisse no cérebro. Melhor dizendo, vejo apenas uma única vantagem, uma dura e fria vantagem prática: morreu, libertou uma cama hospitalar, já não se gasta dinheiro com ela, clarificou o estado civil do seu marido e tutor legal, agora viúvo, num país que pune severamente a bigamia. Desapareceu ela e o peso que constituía. Ficou a dôr nos pais e irmãos que viram impotentes a sua morte legalmente assistida. Definitiva e sem recurso.
Neste caso, que dizem não ser tecnicamente uma eutanásia, identifico claramente a minha maior reserva mental à eutanásia: a possibilidade, para não dizer probabilidade, de ela se tornar uma medida de conveniência, higiénica, económica, uma medida de gestão de recursos públicos ou privados. Completamente contrária àquilo que os seus ardentes defensores dizem querer defender: a dignidade da vida humana.
A Ramón Sampedro não lhe negaram a sua dignidade de homem, deixaram-no partir mar adentro. Não acho que ele tenha tido um desenlace que o engrandeça, mas ninguém o diminuiu. A Terri Schiavo, essa, deixaram simplesmente de a ver com o um ser humano. E, como a um qualquer resíduo hospitalar, deitaram-na borda fora.
Não foi bonito.

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