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quarta-feira, março 30, 2005

Reflexões pascais (1) - um exercício especulativo 

Nota: post editado hoje na Terra da alegria. Publico aqui também pois continuarei a conversa aqui pelo Guia.

Depois de uma Quaresma mal-vivida, com a mente atulhada de coisas urgentes e mínimas, passei este fim de semana prolongado da Páscoa, em casa familiar, praticamente sequestrado pelo péssimo tempo que se fez sentir em terras nortenhas. Aproveitei então o tempo para ler, deitando abaixo 3 livros que se arrastavam há meses na minha mesa de cabeceira, para ver uns DVD´s, e também para ler o que se foi escrevendo pela blogosfera a propósito da Páscoa. E posso dizer que há pano para mangas, nem sei bem por onde começar, mas irei certamente dar um bocado ao dedo.

Vou talvez começar, reatando uma conversa com o meu estimado amigo Nuno Guerreiro, que habita e escreve na Rua da Judiaria, certamente o melhor blogue que conheço. Conforme alguns leitores amigos recordarão, foi com o Nuno que encetei um dia aqueles que para mim foram os mais memoráveis diálogos inter-religiosos envolvendo o meu modesto Guia dos Perplexos, que afinal nasceu para isso mesmo. Com a sabedoria e generosidade que o caracterizam, o Nuno ofereceu-nos uma extraordinária visão insight do judaísmo (aqui, aqui e aqui), que para mim foi preciosa pois, como já disse por aqui, sendo eu católico, o judaísmo ocupa um lugar importantíssimo no instável edifício da minha fé. Daí a minha curiosidade sobre ele. Mas adiante.

Em dois posts recentes o Nuno vem partilhar connosco alguma da sua visão sobre coisas essenciais para a Fé dos católicos. Num deles, o Nuno volta a um assunto já por ele abordado: Jesus, o judeu e faz-nos a recensão de dois livros recém-publicados. Um deles é o “Why the jews rejected Jesus” de David Klinghoffer, que o Nuno pretende ser um exercício de counterfactual history mas que eu acho mais ser um manifesto de reescrita ideológica da história do Cristianismo. Vou assim fazer algumas citações, umas do Nuno, outras do autor citado:
«David Klinghoffer defende que, perante este cenário, o cristianismo teria permanecido um movimento inteiramente judaico, minoritário no seio do judaísmo como os essénios do Mar Morto ou os saduceus de Jerusalém, e seria, tal como estes, condenado a uma extinção gradual.»
Mais:
«Se os judeus não tivessem rejeitado Jesus, se Paulo não tivesse voltado a liderança da igreja para um novo rumo, a fé embrionária teria provavelmente perecido tal como aconteceu com todas as seitas heterodoxas judaicas que desapareceram após a destruição de Jerusalém e do seu Templo pelos romanos no ano 70 E.C.*, deixando apenas o judaísmo “rabínico” – o judaísmo tradicional dos nossos dias. Não haveria cristianismo, nem Europa cristã ou civilização ocidental tal como a conhecemos.»

Bom, devo reconhecer a priori, a incipiência da minha erudição sobre a situação do Judaísmo em tempos de Jesus, que provém das leituras de Paul Johnson, umas passagens da extraordinária “Guerra da Judeia” de Flávio Josefo, um autor judeu proscrito por muitos judeus por ser visto como um traidor a soldo de Roma, e um livro interessantíssimo sobre ele: “Flávio Josefo, o judeu de Roma” de Mireille Hadas-Lebel . Mas seja como fôr, e como estas considerações dizem respeito ao âmago daquilo em que acredito, vou cordialmente rebater o que o Nuno escreve.
É um facto bem conhecido que após a morte de Cristo os seus seguidores se dividiram em duas correntes. Uma era chefiada por Tiago, irmão de Jesus, e por Simão Pedro, que pretendiam difundir os ensinamentos de Cristo numa matriz puramente judaica pretendendo, como outras seitas pretenderiam, transformar o judaísmo por dentro, fazendo-o reconhecer o Messianismo de Jesus. A outra liderada por Saulo de Tarso, depois Paulo, o qual, sendo um fariseu muito mais instruído que os outros, logo muito mais ligado à tradição judaica, percebeu apesar disso muito melhor do que ninguém o carácter universalista da palavra e mensagem de Cristo. Foi efectivamente Paulo, muito antes da destruição de Jerusalém, que conduziu o Cristianismo a ser uma religião universal, com existência própria e independente da tradição religiosa judaica em que Paulo nascera e prosperara. Com Paulo, o apostolado de Cristo saíu das fronteiras físicas e mentais da Judeia, penetrando pelo império romano e penetrando-se também, para horror dos zelosos descendentes dos Asmoneus, do universo cultural helenístico, sobretudo o neo-platónico, onde encontrou uma base filosófica surpreendentemente afim da mensagem de Cristo, sobretudo da sua interpretação Joanina (é verdade, estou a falar do Logos, sim senhor).
Na árvore do Cristianismo, este rebento de Paulo foi efectivamente o triunfante, o que chegou até aos nossos dias. Um rebento que tendo nascido do judaísmo dele se desenxertou, se me permitem a expressão. Desse desenxertamento, que nós acreditamos ser conforme a Palavra de Cristo, resultaram coisas absolutamente contrárias a ela e que envergonham a nossa condição de Igreja de Cristo. Mas na árvore de onde saíu, do judaísmo, esse desenxertamento, deixou uma ferida, uma dôr, que ainda hoje se vê não ter sido resolvida. E, preto no branco, é disso que falo.
Voltemos então à outra corrente paleo-cristã, a que resistiu a se desligar do judaísmo onde nascera, a que resistiu a abdicar de preceitos e mandamentos como a circuncisão. Embora não seja muito bem conhecida, é bem sabido que essa corrente existiu e não se extinguiu por si própria.
Admito perfeitamente, como diz o Nuno, que essa corrente cristã, seria uma seita judaica mais nessa Jerusalém antes da catástrofe do ano 70 DC. Uma seita como a dos fariseus, a dos saduceus, a dos essénios e, convém não os esquecer, a dos zelotas. Uma seita que como diz Klinghoffer, estava condenada a desaparecer como todas as outras excepto a dos fariseus. Mergulhemos assim um pouco nesta história das seitas judaicas.
Os saduceus eram a seita, digamos assim, sacerdotal. Eram os que oficiavam e controlavam o Templo e os ritos, os que estavam mais perto do poder secular do tempo, um poder influenciadíssimo pela cultura helenística, pois a dinastia dos Asmoneus não tinha conseguido resistir à tentação dessa cultura estranha mas tão atraente. O “partido” saduceu era principalmente sacerdotal e aristocrático e manteve sempre um posicionamento político-religioso.
Já os fariseus, recrutavam seus membros nas classes populares e sempre foram muito mais religiosos do que políticos. Diga-se em abono da verdade que a cultura cristã conhece muito pouco daquilo que foram efectivamente os fariseus e tem deles uma visão injusta. O “partido” fariseu destacava-se pela sua competência exegética o que lhes conferiu uma autoridade reconhecida em termos da observância, zelosa e rigorista, da letra da Torá escrita e oral. Naturalmente, opuseram uma tenaz resistência aos costumes e ao pensamento helenísticos. A grande maioria dos escribas e doutores da Lei aderiu ao farisaísmo e obteve o apoio quase total do povo judeu, graças ao prestígio moral e religioso que alcançaram. Era também o mais difundido na numerosíssima diáspora judaica e foi a que melhor sobreviveu até hoje sob a conhecida forma do judaísmo rabínico.
Os essénios, seita por onde dizem ter andado Cristo, antes da sua vida pública, é a pior conhecida por nós cristãos. Mas das três “filosofias” judaicas de então é a que melhor corresponde à noção que temos de seita. Eram uma comunidade homogénea e solidária, organizada com regras de aceitação e de exclusão. Eram uma comunidade ascética, fechada, moralista, misógina e verdadeiramente monástica. Diferentemente dos saduceus e dos fariseus, desprezavam a influência social.
E chegamos a uma outra seita do judaísmo, chamada de “quarta filosofia” por Flávio Josefo e que não era mais do que uma excrescência perniciosa do farisaísmo mas que ia buscar gente exaltada de todas as correntes, saduceus, fariseus ou essénios. Eram nacionalistas fanáticos, discípulos dum fariseu, Sadoch, e que para alimentar uma rebelião originalmente anti-tributária, foram buscar à literatura apocalíptica Judaica (Henoch, Habacuq, Ezequiel, Daniel) uma doutrina milenarista em nome da qual, com vista à salvação colectiva, assumiram o encargo de fazer uma guerra escatológica entre eles, os “filhos da luz”, e os kittim, romanos ocupantes ou protectores, os “filhos das trevas”. Eram chamados de sicários ou zelotas e, segundo Flávio Josefo, foram os principais responsáveis da desgraça que se abateu sobre a nação judaica.
Recordo apenas um pouco dessa desgraça: após décadas e décadas de desordens e sedições no seu protectorado da Judeia, os romanos decidem-se a pô-la na ordem imperial e enviam um poderoso exército chefiado por Vespasiano, um general que veio a ser imperador. Vespasiano, ajudado pelo seu filho e sucessor Tito, levou a cabo uma implacável campanha contra uma feroz resistência liderada por zelotas inflamados e que culminou com o cerco e destruição de Jerusalém, em que morreram cerca de um milhão de pessoas(!) e foi definitivamente destruído o Templo. E a Judéia passou de protectorado autónomo a província romana! Para Josefo, que advogava que só a cooperação com Roma permitiria a manutenção do judaísmo na Judeia, os zelotas e sicários são os primeiros culpados da catástrofe. Nada de inédito...
Diga-se em abono da verdade, que foi felizmente a diáspora judaica, muito mais numerosa que a comunidade na Judeia, que permitiu a preservação do Judaísmo até aos dias de hoje.
Mas voltemos à seita que nos interessa, os ditos cristãos judaicos de Jerusalém. Não se sabe muito sobre ela, depreende-se muito mais. Dela falam os Actos dos Apóstolos, as epístolas de Paulo e pouco mais. Conhece-se a realização do Concílio de Jerusalém, no ano 49 ou 50 em que Paulo veio de Antioquia debater com os Apóstolos e anciãos, entre outras coisas, se os gentios convertidos tinham ou não de ser circuncisados e de aprender a seguir a lei judaica. O compromisso a que se chegou não evitou a evolução da seita cristã em dois caminhos, um judaísta, outro universalista, tendo sido dividido o território de missão. Não se conhece bem como evoluíram as coisas depois do concílio mas é admissível que a Igreja de Jerusalém pudesse derivar em volta do judaísmo, transformando-o talvez ou sendo reabsorvida por ele. Mas nada disso aconteceu pois a Guerra da Judeia destruiu Jerusalém e chacinou a sua população.
E é precisamente por isso que a missionação gentílica foi absolutamente crucial, como pensava Paulo e como pareceu indicar Jesus, ao preferir a Galileia à Judeia como principal área de actuação pública. Mas passemos adiante.
E passemos então ao meu exercício de counterfactual history, pois o de Klinghoffer me parece ser pouco elaborado. Pensemos pois. Pensemos no que seria se os Judeus não tivessem rejeitado Jesus, ainda depois de ele ter sido crucificado. Imaginemos que a Sua condição verdadeiramente messiânica encontrava eco na sociedade judaica de então. Imaginemos que o universalismo da Sua mensagem encontrasse o mesmo eco que a Sua nova visão da aliança de Deus com o Seu povo e que o trabalho de Paulo junto do gentios não fosse mais do que o novo desígnio da nação judaica. Imaginemos que a Sua noção de separação entre o que é de Deus e o que é de César fosse aceite, que a Sua noção do Seu reino, o de Deus, não ser deste mundo penetrasse nos corações. Pensemos em tudo isto em vez da assumpção bizarra de que fatalmente a seita cristã seria destruída com todas as outras na destruição de Jerusalém. E digo bizarra, pois tenho para mim, ainda que seja suspeito, que caso os Judeus não tivessem rejeitado Jesus não tinha havido qualquer guerra da Judeia e Jerusalém e o Templo não teriam sido destruídos. Não pela anulação duma qualquer maldição divina, em que aliás não acredito, mas simplesmente por não serem mais vistos como uma ameaça irritante pelo poder de Roma. Ao invés, o judaísmo, renovado por Jesus e pela Sua Palavra, aberto agora aos gentios, progrediria galopantemente, primeiro através da diáspora, depois por todo o cadinho étnico e cultural do Império. E talvez a história deste fosse diferente, talvez as sementes deixadas em Babilónia frutificassem e permitissem a fusão do império persa e romano, o que faria hoje não existir a noção que se tem do Oriente e do Ocidente. E, aí sim, aí já posso concordar com Klinghoffer, talvez não houvesse nem Cristianismo nem Islamismo mas unicamente o Judaísmo. Não aquele que era nem aquele que veio a ser, mas um Judaísmo transformado, como sabemos que era vontade pública de Jesus.
Mas convém não perder de vista que isto é um mero contra-exercício especulativo. Sabemos bem que a História é só uma e só pode ser mudada para a frente, não para trás. E sabemos melhor ainda que Jesus sabia muito bem ao que veio: por muito estranho que isso possa parecer, Jesus foi um Messias que veio para ser rejeitado. Só assim tudo voltou a fazer sentido.

E por aqui me fico, aguardando notícias. Entretanto, queria também conversar com o Nuno sobre a Páscoa, a minha e a dele. Ah! E também sobre o Purim. Mas ficará para daqui uns dias.

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