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sexta-feira, abril 22, 2005

E agora, Joseph? 

1- Da saudade que fica

Sobre João Paulo II já foi dito tudo o que havia dizer e muito mais ainda. Ele que talvez tenha querido oferecer o seu sofrimento terminal para remissão daquilo em que, inevitavelmente, a grande glória do seu papado lhe maculou um pouco a alma, ele acabou por, depois de morto, voltar aos píncaros da adoração dos católicos e da admiração dos não católicos. Muitos dos que assistiram, com satisfação ou amargura, àqueles dias em que todos os olhos do mundo convergiram para o Vaticano, em que 5 milhões de pessoas, crentes ou não crentes, grandes deste mundo ou simples anónimos, foram a Roma prestar o seu tributo à memória daquele grande papa, grande crente e grande homem, ficaram a pensar que este preito triunfal é sinal de retoma da influência da Igreja Católica no mundo de hoje. Numa estranha identidade, ouvi católicos devotos e ateus impenitentes a falarem ambos de sinais de restauração do poder da Igreja!
Na minha modesta opinião estão ambos enganados, enganadíssimos. Na minha modesta opinião, toda esta enorme atenção global à agonia e morte de João Paulo II deveu-se essencialmente ao imenso carisma, prestígio e simpatia que rodeavam Karol Wojtila. Neste tempo de governantes anões, a figura dele agigantava-se verdadeiramente. Ele era verdadeiramente o único verdadeiro líder mundial. Quando ele ascendeu ao papado não era assim mas, desde esses tempos longínquos, Reagan deu lugar a Bush, Miterrand a Chirac, Gorbachev a Putin, Kohl a Schroeder, Thatcher a Blair, Deng Xiao Ping a um chinês qualquer de que não me lembro o nome. E por aí adiante. João Paulo II, esse continuou num crescendo de prestígio e influência, acumulando uma autoridade moral imensa, fruto duma coerência única neste mundo incoerente. E por cima disso tudo, possuía uma coisa ainda mais magnética que a autoridade e o prestígio: João Paulo II era alguém extraordinariamente simpático. Desde os seus tempos iniciais em que impunha uma fortíssima presença física até aos tempos derradeiros em que mostrava uma fragilidade tocante, o olhar de João Paulo II, o seu sorriso, faziam inumeráveis milhões de pessoas achar que para além do seu rigor doutrinal, muito acima disso, havia nele um amor profundo pela Humanidade. Lia-se no seu rosto aquele milk of human kindness que no fundo é o que mais nos importa. Por causa disso os católicos, todos eles, concordando ou não com ele, seguiram-no e aplaudiram-no. Por causa disso os crentes das outras religiões respeitaram-no e acorreram a ele. No fundo, gostávamos todos dele pois ele alguém verdadeiramente gostável, logo desde a primeira impressão. Isso apaga ou atenua divergências, ressentimentos, alheamentos. No fundo, todos os católicos, mesmo os mais amargurados com o seu rumo doutrinal, se orgulhavam de o ter como papa. E quase todos os restantes, crentes e não crentes, lhe deram a sua afeição. Usando um termo feliz que o meu amigo CC trouxe há dias na Terra, da Alegria eu diria que João Paulo II, mesmo que possa não ter estado sempre em Graça, pôde e soube gozar dum estado de graça permanente durante todo o seu papado.
Quero com isto dizer uma coisa simples: em termos mundanos João Paulo II transcendeu e continuará largamente a transcender a Igreja Católica. Duvido muito que nos 26 anos do seu glorioso papado, a influência da Igreja tenha aumentado. Pior ainda: duvido ainda mais que a influência do cristianismo não tenha descido muito. Penso que não por culpa dele mas por causa duma forte tendência sociológica que nem ele conseguiu evitar, embora talvez tenha atenuado. E a que a Igreja Católica, assim como as outras Igrejas Cristãs, não tem sabido responder.
E, agora que ele desapareceu e foi substituído, bom será que a sua memória tão marcante, que os holofotes do mundo apontados aos faustos já quase esquecidos do Vaticano, que aquilo que alguns chamam baixinho de “oportunidade mediática”, não sejam tudo isso razões para um novo triunfalismo da Igreja Católica. Triunfalismo que sempre lhe ficou tão mal e que, neste particular momento, seria tão absurdamente inapropriado.

2- Da surpresa anunciada

Já o seu sucessor, o cardeal Joseph Ratzinger, duvido que o mundo lhe conceda sequer um pouco de estado de graça. João Paulo II, tão coerente na ortodoxia doutrinal como no resto, encontrou no seu Prefeito da Congregação da Doutrina e da Fé, um homem utilíssimo e dedicadíssimo que assumiu, não se sabe se com gosto, o peso e também o odioso mediático de ser ele a andar no terreno a catar da Santa Madre Igreja todas as heterodoxias, heresias e os tais famosos relativismos. E enquanto Ratzinger vigiava atentamente, João Paulo II pôde prosseguir o seu ministério em campos muito mais espirituais, pastorais e humanos.
Devo aqui dizer que eu, que me considero um católico livre (progressista é um termo tão safado...), acho sinceramente que a Igreja precisou, precisa e precisará sempre de pessoas como o Prefeito Ratzinger. A fé cristã, sobretudo a católica, sendo muito mais espiritual do que normativa, assentando muito mais numa Palavra e numa Vida do que num código de mandamentos e proibições, sendo uma fé a que se adere tanto pela razão como pela emoção como pela tradição, é uma fé que precisamente por essa sua natureza que eu tanto amo, necessita das peias de alguma regulação e ordenação. É um papel com o qual não simpatizo mas que reconheço absolutamente que tem de ser feito e bem feito por alguém. Caso contrário, e sinto na pele o que estou a dizer, a fé católica dispersa-se capilarmente por mil percursos especulativos que, reconheço, podem levar a perder-se algo que não pode absolutamente ser perdido, algo que não sei definir mas que é o essencial da fé em Cristo.
Será melhor dar um exemplo: a teologia da libertação. Ela apareceu num contexto muito próprio em que a Igreja não estava decididamente a dar resposta ao sofrimento de milhões dos seus filhos, esmagados por sistemas políticos oligárquicos e sem alma. Leonardo Boff é um homem que admiro imenso, um teólogo profundíssimo, um enorme crente, uma alma verdadeiramente em Cristo. Quase tudo o que disse e diz a teologia da libertação é justo e está de acordo com a palavra de Cristo. Todavia ela acabou a ser fortemente combatida pelo Vaticano, pelo próprio Ratzinger, que silenciou abruptamente os seus teólogos. Durante muito tempo não percebi porquê. O facto da teologia da libertação habitar paredes meias com a ideologia marxista não me parecia uma razão muito cristã, pois não se estava a confiar na força da fé. Até pelo contrário: ao terem-na rejeitado tão brutalmente, empurraram muitos bons crentes para o vazio do ateísmo e para a ilusão do marxismo. Mais tarde li documentos dessa teologia e só então percebi, ou penso que percebi, as razões de Ratzinger. A teologia da libertação assume como meta central a obtenção da justiça na terra e fá-lo socorrendo-se da mensagem de Cristo. Faz bem porque Cristo mais do que justo, era Bom, amava-nos tanto que deu a Vida por nós. Cristo combateu as hipocrisias dos fariseus, combateu as injustiças dos sacerdotes, combateu a ausência de compaixão do povo. Por isso é bom e é justo que seja invocado pelos que se querem colocar ao lado dos pequeninos deste mundo, protegendo-os da crueldade, injustiça e indiferença deste mundo de hoje e de ontem. O trágico e perigoso da teologia da libertação é que, não ela em si mesma mas muitos dos seus seguidores, ao sentirem Cristo como modelo, acabam muitas vezes por reduzi-lo a mais um justiceiro deste mundo, a um simples revolucionário, a um profeta da justiça e da solidariedade, a um companheiro de ontem da sua luta de hoje. E Cristo é isso mesmo. Só que é muito mais do que isso: Cristo é Deus, Filho de Deus, Verbo de Deus. O facto de ele nos ter sido enviado por Deus "não como o Deus que Ele era, mas sim como convinha que Ele fosse para os homens", para morrer por nós, esse simples e misterioso facto, é o núcleo central da nossa Fé. Esquecer isto é reduzir o Cristianismo a uma ideologia mais, talvez a melhor, mas não mais do que isso. É esquecer Deus, a Salvação, a Graça. Como dizem cristãos de cujo conservadorismo não gosto, é esquecer a centralidade de Cristo. A teologia da libertação não proclamava isso mas abria-lhe largo caminho. E por isso foi reprimida.
Neste exemplo prático consigo talvez explicar porque é, não gostando da rigidez dogmática nem da secura escolástica destes Prefeitos da Fé, concordo ainda assim com a sua existência e labor. São desagradáveis mas necessários. É um trabalho feio mas alguém tem de o fazer. E, sobretudo, na Igreja povo de Deus e comunidade de crentes, eles não tem mais importância de que a lhes quisermos dar. Como católico, envolvido num movimento católico, nunca me senti inibido, limitado, coartado, reprimido pela ortodoxia do Cardeal Ratzinger. E menos ainda senti a Igreja prejudicada e diminuída pela sua zelosa actividade.
E volto então a ele. Sendo ele o alter ego de João Paulo II, sendo ele há muito o governante fáctico do Vaticano, sendo ele o expoente máximo da unidade doutrinal da Igreja, é a coisa mais natural do mundo que a Igreja, pelos seus cardeais, o tenha escolhido como sucessor de Pedro e de João Paulo II. Talvez tenha sido inspiração do Espírito Santo. De certeza foi gratidão, orfandade do grande Wojtila, desejo de estabilidade, receio do que aí vem sobretudo na Europa, berço da Igreja. Sempre assim foi: em tempos de incerteza aposta-se no certo em vez do incerto.
E é por isso que pensando agora, confortavelmente a posteriori, vejo que a eleição de Ratzinger só foi uma surpresa porque grande parte de nós, eu incluído, não queríamos que ela acontecesse. Para os outros não foi surpresa porque a desejavam. O padre João Seabra é certamente mais inteligente do que eu mas não terá poderes divinatórios nem ligação directa à Capela Sistina.
Aqui, como em tudo o resto, a vontade sobrepôe-se à objectividade. A verdade é que não. E é por isso que me pergunto sinceramente se esta escolha terá sido ou não a melhor.

3- Klein aber fein

Ora, reconhecendo que Ratzinger foi um excelente embora impopular prefeito da doutrina e da Fé, parecem-me evidente que ele terá grandes dificuldades enquanto Papa Bento XVI. Achei interessante ouvir irmãos meus na fé, com aquele arranque de esperança que é tão católico, dizerem “morreu o cardeal Ratzinger, viva o papa Bento XVI!”. Assim como que uma transubstanciação da pessoa pela obra e graça do Espírito Santo...Sabemos bem que o Espírito Santo só actua em nós se O deixarmos. E observando bem Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, ouvindo o que ele disse enquanto Joseph e o que já disse enquanto Bento, parece-me altamente improvável que ele mude ou queira sequer mudar. Por ter 78 anos, por ser alemão (desculpa lá, Lutz), sobretudo pela profissão que teve estes últimos anos. O trabalho de guardião é terrível. Muitas vezes é mais livre o prisioneiro do que o seu carcereiro. O trabalho de guardião seca a esperança, cristaliza o pensamento, reduz a humanidade. É, como disse atrás, um trabalho necessário mas duro, mais ainda para quem o faz do que para quem o sofre. É duplamente terrível quando uma grande inteligência o faz ver que ter zelado tanto pela protecção da Verdade de Cristo acabou por não o aproximar Dele. Nesse sentido vejo até Ratzinger como o herói anti-herói, como alguém que sacrificou tudo, até o seu amor pela Verdade, uma Verdade que é sobretudo Amor. Admiro-o mas lamento-o e, agora que é papa, rezo por ele.
Mas duvido sinceramente que possa vir a ser um bom papa. Sobretudo por vir a seguir a um tão grande papa, alguém que elevou a bitola do pontificado para níveis imensos, alguém que projectou a função para todo o mundo, para além da Igreja. Mas também porque as características que fizeram dele um fantástico lugar-tenente de João Paulo II não são as características que hoje são precisas para se ser um bom papa. Nem vou falar do carisma, da imagem, da doçura da Fé, do espírito pregador, da forte ideia de apostolado. Falo apenas da falta daquilo que nos arrastava para Karol Wojtila: o tal milk of human kindness, uma tão grande dádiva de Deus aos homens que não consigo discernir naquele rosto.
Há dias vi na RTP1 uma entrevista antiga do cardeal Ratzinger a uma rádio italiana. Durou menos de meia hora, nela não vi senão inteligência, determinação, certeza, sabedoria e secura. Quando João Paulo II, acabado de eleger veio à janela de S.Pedro para falar pela primeira vez aos fiéis, disse uma coisa espantosa e poderosíssima, que norteou todo o seu pontificado: não tenhais medo! Medo de ser cristão, medo de aceitar Cristo nas nossas vidas, medo de O proclamar aos outros. Se nada mais tivesse acontecido, essa frase teria valido por tudo o resto. Mas, em igual circunstância, Bento XVI apenas prometeu humildade e trabalho, que é aquilo que sempre deu à Igreja. Ao escrever isto sinto que estou a ser injustíssimo com a sua pessoa. E estou-o de facto. Mas estou a falar dele enquanto papa.
Injusto ou não, é bom reconhecer que estou a falar de ouvido, sem verdadeiro conhecimento de causa, baseado em impressões. Mas são impressões fortes.
E quero dizer outra coisa. Apesar de tudo que disse atrás, estou optimista!!!
Pois posso estar completamente enganado e Joseph Ratzinger, sendo a pessoa que é e sempre foi, poder vir a ser também um grande papa. E posso estar completamente certo e Joseph Ratzinger vir a confirmar os receios que nele tantos depositam.
Acontece que a minha fé em Cristo vive com a minha fé na Igreja Católica, que tantos erros cometeu ao longo de 2000 anos mas continua a conter e a oferecer ao mundo a Palavra de Cristo. Continua a ser detentora duma profunda sabedoria. E estou absolutamente certo de que, do mesmo modo que o brilho e carisma de João Paulo II ofuscaram a vida e desenvolvimento espiritual das comunidades eclesiais de base, a eventual falta de carisma ou estreitamamento doutrinal de Bento XVI, as fará refortalecer. A Igreja, enquanto realidade em permanente construção, já teve quase 300 papas, já cometeu erros terríveis e já defendeu coisas fundamentais, já foi centralista, já foi nacionalista. Esta mesma Igreja está hoje perante desafios tremendos. Desafios que não são reconhecidos e percebidos duma forma única. Mas com mais papa ou menos papa, sempre com os bispos e com os movimentos de fiéis, ela continuará a ter e a ser uma resposta.
Digo pois, sem qualquer ironia: viva o Papa Bento XVI! não tenhais medo!
(texto revisto sáb. 23 abr.17h50)

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