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sexta-feira, abril 01, 2005

the real issue 

Ontem quando ia para casa, ouvi no noticiário da TSF uma crónica duma jornalista exultante, sobre a agonia e morte da Terri Schiavo. Após um relato no mínimo enviezado sobre os contornos desta complexa situação, a dita jornalista concluiu com uma pérola inesquecível: "ao fim de 15 anos de luta, Terri Schiavo venceu a luta pelo seu direito à morte" (!).
Não podia ter sido mais eloquente esta jornalista. O facto, rigoroso mas inútil, de a vontade de Terri Schiavo sobre a sua vida não ser verdadeiramente conhecida, senão através duma versão contada pelo seu marido há 7 anos sobre algo que ela teria dito há mais de 15 anos, não tem qualquer valor para este jornalismo de causas que nem questiona sequer o facto do marido de Terri ter levado 8 anos a comunicar os desejos da sua mulher impossibilitada de os comunicar directamente.
Aliás, conhecendo eu tão mal os detalhes deste caso, não estou aqui a condenar o marido. Admito que durante 8 anos ele teve esperança na recuperação da sua mulher e depois perdeu-a. Admito que no lugar dele seja legítimo desejar o término daquela situação.
Mas o facto incontornável é que a vontade de Terri não era nem foi inequivocamente conhecida. E como tal, não foi tida nem achada. E assim sendo não havia o direito de lhe roubar a vida que ela efectivamente tinha.
Reflectindo melhor sobre tudo isto, parece-me hoje que a questão da vontade do doente é absolutamente crucial em tudo isto. Quero eu dizer que poderei até admitir a eutanásia se fôr essa mesmo a vontade verdadeiramente inequívoca do doente. O que há que fazer é garantir que essa vontade não resulte da vontade de terceiros nem, e isso é fundamental, da falta de atenção e dos cuidados paliativos que poderiam tornar mais suportável o seu sofrimento, por forma que eventualmente até fosse descoberto algum sentido nesse sofrimento.
Agora sendo inequívoca a vontade em terminar a agonia, sendo intolerável e intolerado o sofrimento, admito que se faça a vontade do doente. A vida foi-lhe oferecida, bem como a liberdade em a utilizar, disso dará contas a Deus, que acredito ser infinitamente misericordioso, sobretudo com quem muito sofre.
Neste caso, pelo que me é dado a conhecer, nada disto se passou. Por isso, acho absolutamente lamentável esta morte por inanição, esta morte legalmente assistida.

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