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sexta-feira, maio 13, 2005

A 13 de Maio, longe da Cova da Iria 

(continuo seco de palavras e pensamentos. uma alteração de circunstâncias, se bem que desejada, fez reacordar em mim facetas desagradáveis, que me desespiritualizam, que me afastam do Espírito Santo. aliás era disso que falava na Terra da Alegria da passada semana. hoje, ainda no escritório, passada mais uma semana de silêncio, um silêncio que me diminui, resolvo repescar uma coisa antiga, uma conversa com o David Bengelsdorff, que já se extraviou da blogosfera. e faço-o porque vem a propósito dum mail que hoje recebi.)

Perguntam-me hoje novamente algo parecido como: o que fazer com a senhora de meia idade, que através do sacrifício e da dor, pretende negociar em Fátima com o Deus da Graça?

E lembro-me novamente daquela senhora de 58 anos que vem de S.Pedro do Sul. É gorda essa senhora e tem umas varizes monstruosas e uns pés disformes que lhe transbordam dos sapatos cambados. E é ignorante, coitada, nem a 4ªclasse tem. O marido morreu-lhe em França, há 16 anos, nem chegou ela a perceber de quê. Deixou-lhe apenas a casita, por acabar, a pensão que recebe, dois filhos que já se piraram e um outro que, pobrezito, fica todo o dia a babar-se numa cadeira de rodas que já nem roda. E deixou-lhe também dois sogros que já nem se levantam da cama se é que aquilo se pode chamar cama. A senhora, coitada, já nem pensa nem chora, só reza à Santíssima Nossa Senhora das Dores, amiga e protectora dos que sofrem e que a espera em Fátima neste mês que é Dela. Reza também aos beatos Francisco e Jacinta que morreram tão novinhos, coitaditos, mas foram ter com a Nossa Senhora e o Menino. E, novamente este ano, a senhora anda e anda pela estrada fora com outras senhoras iguais a ela. Anda e reza e canta ladaínhas foleiras e pueris. E tudo isto para que os dois filhos, aqueles ingratos que se foram embora, deem finalmente notícias e para que o mais novo, coitadinho, fique mais compostinho e que os outros dois tomem conta dele e dela quando tiver de ser e para que os velhotes possam depressa ir ter com Deus. E, se puder ser, para que não lhe doam tanto as pernas e que consiga finalmente a consulta no médico por causa daquela maldita dor no peito que lhe vem à noitinha já sem falar daquela dôr aguda que de quando em vez parece que lhe perfura a cabeça. E cminha e reza também para que vá havendo sempre pão à mesa para os quatro lá de casa. A boa senhora, mais uma vez, leva também a encomenda para a Virgem Maria Auxiliadora feita pela vizinha da rua de baixo que, coitada, já nem sabe como se há-de haver com os quatro filhos, todos eles metidos naquela coisa da droga, cada vez piores e que nem a deixam saír de casa e lhe batem e a roubam e quase que a matam.
E é por todas estas intenções que a senhora se vai para Fátima, este ano como nos anteriores, para que Nossa Senhora, que foi mãe de Deus lhe diga a Ele para a ajudar a ela que tanto precisa, e louvado seja o Senhor, nosso Pai e Filho e Espírito Santo amen. Eu cá nunca fui peregrinar a Fátima. Também a mim, como a muitos, Fátima nada acrescenta à minha Fé, uma Fé consciente e reflectida, resultado de muitas leituras de e sobre a Palavra de Cristo. A mim, como parece que também a Bento XVI, Fátima cai no "domínio da revelação pessoal". Também a mim, Fátima e o seu kitsch e os seus vendilhões de insignificâncias beatas, ofendem a minha estética e a pureza da minha espiritualidade. Mas eu não consigo olhar com dureza os milhares de peregrinos que vão ali negociar Graças de Deus em troca do seu sofrimento.
Não. Em toda aquela gente que faz uma coisa com que não me identifico mas que eu nunca seria capaz de fazer, o que eu vejo é gente que sofre e que é imensamente digna no seu sofrimento. O que eu vejo é uma Fé, que pode ser pouco esclarecida, um pouco grotesca até, mas que é uma enorme Fé no Deus em que ambos acreditamos.
E estou certo que o Deus da Graça, como alguns O preferem chamar, se compraz naquela gente, reconhece a sua grandeza e se apieda das suas dores.
E isso, por si só, justifica Fátima. Acredite-se ou não. Concorde-se ou não.

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