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segunda-feira, junho 27, 2005

Bruscamente, no Domingo passado 

Todos nós que fomos baptizados em Jesus Cristo fomos baptizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, para glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova. (Rom 6,3-4)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim. Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. (Mt 10,37-39)

Domingo, ontem ao fim da tarde, após fim de semana preenchido. Resolvemos que sim, que temos de ir à missa. Desembocamos numa perto de casa, às sete da tarde. Paróquia antiga, igreja lindíssima. Entramos atrasados, no meio da milionésima tentativa coral dum coro vetusto. Os miúdos põe-se logo a rir mas calam-se logo perante o olhar severo da mãe e severíssimo do pai. Entretanto reparo que presidia à missa o prior daquela freguesia, um padre velho conhecido, um veterano pastor e um santo varão, que sempre muito bem pregou mas sempre foi mal escutado por mim, distraído que sempre fui por um excessivo histrionismo oratório, uma dessas coisas minúsculas que me afastam tantas vezes da Palavra. Escutei uma senhora a ler a Carta aos Romanos e ele a ler o Evangelho, isto na expectativa de como ele iria desenvencilhar-se daqueles trechos difíceis – tal é a minha persporrência de crente! Mas ele desenvencilhou-se melhor do que bem. De repente escutei-o a dizer algo como isto:
Nós Igreja, somos infelizmente uma comunidade de crianças baptizadas, crianças baptizadas sem terem tido escolha ou consciência. Não é inteiramente mal que assim seja pois, sem o entender plenamente, acredito na eficácia do sacramento em si mesmo. O mal é que assim o permaneçamos: apenas como crianças baptizadas. Fomos baptizados sem consciência do que isso significa e crescemos sem adquirir essa consciência. Aqueles que de nós baptizam os seus filhos fazem-no quase todos sem essa consciência. Pensamos vagamente que o Baptismo nos lava da crosta do pecado original, ainda que não saibamos bem o que é isso. O que nunca pensamos nem percebemos é aquilo que Paulo nos diz: «Todos nós que fomos baptizados em Jesus Cristo, fomos baptizados na sua morte.» Não percebemos nem queremos perceber que o baptismo liga toda a nossa sorte de vida à vida que Cristo teve e ofereceu por nós. Não percebemos, porque não queremos perceber, a nossa responsabilidade de baptizados, não queremos tomar uma cruz e seguir Cristo e, como somos todos boa gente, não invocamos razões fúteis para isso. Invocamos sim o pai e a mãe e o filho e a filha pois, sendo bons cristãos, somos todos bons pais e somos todos bons filhos. E por isso este trecho de Mateus que vos li é remetido para a gaveta daqueles a serem interpretados à luz dos usos desse tempo. Não, digo-vos eu, este trecho é para vocês que estão hoje aqui, é também para os que nem sequer aqui vieram. Este trecho diz-nos que, apesar dos pais e dos filhos, podemos, devemos e temos que fazer muito mais do que fazemos, temos que pegar na cruz, temos de oferecer uma parte boa da nossa vida e oferecê-la a Cristo, oferecendo-a precisamente aos outros que não são nossos pais nem são nossos filhos!"
Quando ele quase que rosnou o assim seja! e se atirou ao Credo, fiquei um bocado sentado na cadeira, atordoado com tudo aquilo que ouvi, surpreendido por ter sido tão surpreendido, tocado por aquilo se me aplicar tão bem. E antes que isto me esqueça e eu regresse à minha doce letargia católica, achei bem pôr isto aqui por escrito. Há coisas que têm mesmo de ficar registadas em acta.

Umas horas mais tarde ouvi na televisão uma cariátide do regime a falar de pontapé na nuca, já não sei a propósito de quê. Pois eu cá já tinha levado um nesse dia.

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