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segunda-feira, junho 06, 2005

Crisis? What crisis? 

Decididamente este país que é o nosso é um país patusco. Patusco e previsível. Descobrimos agora, surpreendidos e afrontados, que pela enésima vez na nossa História, estamos em crise, numa crise profunda, estrutural, sombria, sem solução à vista. Segue-se um texto sempre a descer.

Assim de repente fomos mais uma vez acordados do nosso doce ripanço por uma série de descobertas inauditas: que temos um défice monstruoso, que quase tudo o que consumimos é importado, que quase nada produzimos e que aquilo que ainda produzimos está sob forte ameaça de ser deslocalizado, que durante esta prosperidade em que pensámos viver, todos aqueles que se souberam mexer conseguiram regalias, isenções, regimes especiais, prebendas, coisas que parece que são direitos adquiridos, ou seja tão inamovíveis quanto a Serra da Estrela. Descobrimos que os magros recursos que produzimos se esvaem todos não sabemos bem como ou pior: não sabe o governo bem como! Descobrimos, aterrados, duas coisas terríveis: que aqueles que nos governam e tem governado não tiveram nem tem ideias claras sobre como nos tirar desta enrascada e, pior ainda, que desta vez parece que a situação é de tal maneira má que nos vai directamente ao bolso, a nós, os quase todos que já nos tínhamos habituado a uma vida pelo menos boazita ainda que as mais das vezes a crédito. Sim, sim, desde que se nos abriram os cofres da Europa, desde que um primeiro-ministro qualquer criou um novo rácio económico – os milhões de portugueses no Algarve durante a Páscoa – e nos disseram que o consumo era a panacéia para o crescimento, nós temos feito patrioticamente a nossa parte. E se a igualitarização dos rendimentos pareceu sempre ser uma utopia ultrapassada, já a igualitarização do consumo, essa já nos pareceu possível, com uma ajudinha, claro, da nossa moderníssima banca mailas suas agências imaculadas e os seus impecáveis private bankers. E se consumimos, caramba! Esgotámos várias vezes a capacidade hoteleira do Brasil, renovámos e duplicámos a nossa frota automóvel, primeiro em leasing e agora em renting. E que bela frota ficou (a automóvel, não a de pesca, coitada dessa!): GTI´s, TDI´s, BM´s, Classe E´s, lindos, reluzentes, pretos, com estofos de pele, GPS e DVD! Claro que nos ficam pelos olhos da cara, às vezes com a prestação mais cara do que a da casa, mas porra pá, lá para casa não convidamos ninguém e o gozo que nos dá ir a assapar desde a A1 à A28, a impressionar os pategos como nós, o gozo que nos dá, às nove da noite, quando estacionamos a máquina na praceta! E temos dado assim a nossa ajuda adicional e patriótica à nossa economia: afinal é o IVA, o IA, o ISC, tudo direitinho para o Estado que vela por nós. E não se pense que é só viagens e carros, não senhor. Há os plasmas, umas televisões achatadas que dá para pendurar na parede, embora a imagem seja assim um bocado distorcida e granulada isso não interessa nada, até parece que dá um gozo maior ver a Manela Moura Guedes. Há também as playstations, os computadores, os mp3, as roupas de marca, tudo isso sobretudo para os putos, que é uma forma excelente de os calar e entretêr, que ninguém tem paciência para os aturar.
É claro que, durante estes anos, houve sempre por aí uns gajos, uns chatos tipo Medina Carreira, a dizer que isto não era sustentável, que se estava a criar um monstro, que quanto mais consumíamos pior isto ficava, que o endividamento das famílias (e que tem eles a ver com as nossas famílias???) já era maior do que o nosso rendimento. Apareceu entretanto também aí um gajo mal encarado, um ex-maoísta reciclado, vejam bem, a dizer que estávamos todos de tanga. Mas a malta não ligou, vimos logo que o homem não estava a falar a sério, o que ele próprio veio logo a demonstrar. Quando ele se pirou, ficámos a pensar em porque teria sido mas apareceu logo o outro a animar a malta, pois afinal as crises parece que são psicológicas ou lá o que é. E bem nos animou esse outro tipo, animou até demais, pois já diz um colega meu uma coisa mais ou menos assim: em política não é preciso ser sério, é preciso parecê-lo.
Foi por isso que votámos todos neste novo gajo, pois aquilo a continuar como estava ainda ainda acabava mal, ainda nos lixava as reformas, nos lixava já as próximas férias que já estão marcadinhas, sim senhor!
E é no meio disto tudo, que nos aparece agora o novo homem, sério, seriíssimo, a dizer que isto está mesmo mal, que está mesmo pela hora da morte. E vai daí, parece que vão aumentar os impostos, mexer nas reformas, nas pensões, nos subsídios, um horror! E como é costume quando parece faltar o pão, zangam-se as comadres e sabem-se as verdades. Então não é que na função pública, não tem todos as mesmas regalias? Parece que se foram criando uns estatutos especiais a torto e a direito. E parece que há senhores que acumulam pensões com reformas e reformas com vencimentos, que a gente nem sabia nada disso, senão também tínhamos querido entrar no esquema.
Mas enfim, a coisa parece estar mesmo complicada e de Bruxelas vem menos cheta e há agora uns países em que o pessoal é como nós éramos há 20 anos atrás mas que são uns fura-vidas que nos vem lixar ainda mais porque em vez de, como até agora, virem trabalhar para cá nas obras e coisas assim que a nossa gente já não quer fazer, agora fazem muito pior: agora levam-nos as nossas fábricas lá para a terra deles!
De maneiras que a coisa parece que está preta: os patrões fogem, o desemprego aumenta, os juros parece que também vão aumentar, do gasoil já nem se fala, os preços vão ter mais IVA, vamos receber menos limpo ao fim do mês. E o que nos vale é que os chineses que nos fecham as fábricas, em troca mandam para cá uns produtos baratíssimos, que vai ser assim que a malta vai auguentar a prestação do jipe!
Para falar verdade, temos ainda uma esperançazita de que estes gajos não estejam a falar completamente a sério pois já sabemos como são estes políticos, que gostam de brilhar mas é no fim dos mandatos. E a malta não é parva, já começámos a topar aí as tretas do costume: que isto vai ser faseado, que as pessoas não vão sentir assim tanto, que as coisas só começam mais a sério lá para o ano que vem, que os direitos adquiridos são sagrados, que é preciso analisar melhor certas coisas. Vai-se a ver isto fica em águas de bacalhau e este nosso país vai-se desenrascando, como sempre se desenrascou. E é bom que assim seja, que ninguém nos queira retirar esse direito sagrado que nos resta, o direito de consumir, porra!
Mas há uma coisa que, essa sim, nos irrita à brava. É que estes tipos falam do buraco das contas públicas, do défice enorme, da crise da economia, de todas essas coisas falam, falam e falam. Mas o que ninguém nos explica é como chegámos a esta situação! Essa é que é essa!

PS: irritei-me um bocado ao escrever este texto. Sobretudo ao pensar que alguns de nós, não poucos até, passaram completamente ao lado dessa dourada era do consumo que já lá vai sem regresso. Esses que já estavam mal, continuarão a estar ainda pior. Esses sim, são os únicos totalmente isentos de culpa nisto tudo. Esses são os que não deveriam pagar por toda esta porcaria que andámos a fazer nestes anos todos.

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