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sexta-feira, junho 24, 2005

Crónica dum bom malandro 

A língua portuguesa é, bem se sabe, um bocado limitativa. Queria explicar-vos como ando, explicar-vos porque ando tão calado. E para explicar isso e como me sinto, só me ocorre um termo inglês: rough. Ando pois rough. Traduzindo mal: ando endurecido. Não endurecido com os meus, os lá de casa, que esses continuam a espantar-me todos os dias com o seu amor persistente, com uma identidade que me lisonjeia mas sobretudo com uma alma própria, bem melhor do que a minha, umas almas todos os dias cada vez mais únicas, que me fazem sentir um pobre homem bafejado por uma sorte tão desmedida quanto imerecida. Por esses, os lá de casa, eu devia saír de lá, todos os dias de manhã, de alma grata e de alma grande. Por esses, os lá de casa, eu devia de lá saír, todos os dias de manhã, pronto a repartir ao menos um pouco daquilo que recebi. Por eles, eu devia ser com outros pelo menos um pouco do que sou ou tento ser com eles, quando com eles estou.
Mas assim não é: ando endurecido, rough, apesar de parecer contente. Nesta vida que agora tenho e que, todavia, não é assim tão diferente daquela que tinha antes, nesta vida de agora renasceram em mim instintos antigos, antigamente tão prezados e cultivados, instintos de sobrevivência e de afirmação, instintos guerreiros e matreiros. Instintos que a iminência de desastres humilhantes, a par com uma fé redescoberta, foram afastando do meu coração mas que agora regressam, indesejados mas indiferentes a isso. Uma competitividade atávica mas também aprendida e reaprendida, reacorda em mim, vigorosa, excitante, esterilizante. Nas minhas 9 to 5 que são agora mais 9 to 9, ando hiper-atento, hiper-activo, hiper-reflexivo, hiper-reactivo. A adrenalina, vício de que nunca me libertei, segrego-a agora continuamente em doses bem repartidas pelo correr dos dias. Busco uma excelência de per se, busco objectivos há muito desejados mas acessíveis apenas lá bem ao longe, pois é de corridas de fundo que eu gosto mais. Mind games, brincadeiras de crescidos, coisas sem valor.
Mas, claro está, como diz e bem o sábio Ecclesiastes, tudo isto é vaidade das vaidades, que me consome tempo e espírito, que assim me desespiritualiza, que me desumaniza perante os que não são do meu círculo próximo. Já percebi que é isto o que explica o silêncio do Espírito Santo, que se calou em mim, dolorosamente. É isto que me inibe de escrever coisas que mereçam ser escritas aqui, onde jurei jamais escrever algo sem o sentir verdadeiramente. E, sobretudo, é isto que me tornando desmerecedor da fé e das bençãos que tenho, é isto me envergonha perante Deus. E enquanto não descubro em mim a humildade de Lhe saber pedir que me ilumine e me encaminhe de novo a Ele, peço-Lhe que, com a sua misericórdia inaudita, vá manifestando a Sua presença nos que vivem ao meu lado, nas coisas que leio aqui e ali, num entrever de atitudes e sentimentos que se oferecem gratuitamente, sem nada esperar em troca, em exemplos de renúncia num mundo de querença e ganância. E que um dia de novo, o mais rápido possível, eu volte a caír em mim.

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