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sexta-feira, junho 17, 2005

Interrupção voluntária do pensamento 

Caríssimo Lutz,

Li com alguma perplexidade a tua analogia Timshel-Cunhal. É claro que o nosso comum amigo Timshel não precisa de advogados de defesa, sobretudo se são engenheiros, mas ainda assim venho dizer-te que me parece que esta tua comparação me parece demasiado simplista. Senão vejamos:
- o Timshel, católico atento e empenhado, confrontado pela aparição dum papa que, ainda que tenha sido guardião da ortodoxia, sai completamente fora do mainstream do pensamento do povo católico europeu, tenta perceber melhor o pensamento de Bento XVI, tentando encontrar pontes com ele. E fá-lo, penso eu, por duas razões: porque a entidade Papa tem para nós católicos algum significado teológico de per se, e porque o Tim, como bem o sabes, tenta sempre perceber o ponto de vista do outro. Por outro lado, todo este esforço de ductilidade do Tim se mantém no campo da doutrina que não o da prática, campo onde ainda pouco ou nada se pode dizer. Agora, por absurdo, se o Vaticano decidisse anexar a República de S.Marino estou certo que veríamos o Timshel a trovejar contra Bento XVI!...
- o Cunhal ao defender a invasão da Checoslováquia, não estava a defender a doutrina oficial do PCUS, estava antes a defender a sua prática que, como concordarás, ia completamente contra essa doutrina. E aí está o meu ponto:
- uma coisa é navegar no seio de uma doutrina oficial que, na nossa humildade de crentes, achamos poder ter elementos orientadores para nós; outra coisa totalmente diversa é avalizar cegamente uma prática que pode ser até o maior perigo para a nossa fé (um ex: a cobertura dada pela hierarquia católica americana aos padres pedófilos)
Só para terminar, uma nota pessoal: mais perigosa ainda que a pulsão de aproximação a um qualquer pensamento oficial exterior a mim, é o endeusamento acrítico e cristalizador do meu próprio pensamento, o que muitas vezes é fonte de escravidão e não de libertação.
Termino com um naco de duplipensar orwelliano: submissão é força, convergência é liberdade!
Espera aí que afinal não é assim que termino. Com que então pedes, no teu P.S., "antecipadamente desculpas ao Timshel no caso de ele me assegurar que não existe, da sua parte, nenhuma vontade de aproximação ao pensamento do Papa."? Mau! Esse teu P.S. é que já cheira a PCUS! Então a tua "incapacidade de participar activamente num movimento ideológico seja qual for, partido ou igreja" implica a não aceitação da atitude de pertença que o Tim escolheu ter? Não acredito que tu penses assim. Deve ter sido da tradução...

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