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sexta-feira, junho 03, 2005

O Guia pelos seus leitores (1) 

(a minha afonia espiritual prossegue, persistente. afonia bloguística também, mas não é isso que mais me preocupa, excepto talvez pelas 30 ou 40 pessoas que vem aqui em vão, diariamente. assim sendo, resolvo pegar numa ideia abrupta e ir pondo aqui coisas enviadas por leitores. começo obviamente, necessariamente, pela Conceição, com um texto de Boff por ela enviado e que muito agradou a este anónimo e egocêntrico José, que verdadeiramente eu sou)

São José: patrono dos anónimos

Por mais de vinte anos pesquisei sobre S. José nas melhores bibliotecas do mundo. Disso resultou um livro de tamanho considerável - São José, a personificação do Pai - que pessoalmente considero, pela idade que já tenho, o meu "nunc dimitis" (minha despedida) de uma reflexão dogmática-sistemática sobre a vida cristã.
Como todas as coisas, assim também José, além do lado visível de artesão, esposo, pai, educador possui um outro invisível, ligado ao Mistério que ganhou uma das expressões singulares no caminho de Maria, de Jesus e dele mesmo. No livro tento mostrar que ele significa a personificação do Pai, assim como Jesus é do Filho e Maria, do Espírito Santo. Esse discurso vale apenas para os cristãos. Não abordarei esta espinhosa questão. Restrinjo-me àquilo que todos podem compreender, independentemente da fé que professem.
São José é uma figura na sombra. Não deixou nenhuma palavra, apenas teve sonhos que, não sem dificuldades, acatou e seguiu. Não sabemos nem quando nasceu nem quando morreu. Apenas que, corajoso, levou para casa uma rapariga grávida e assumiu o menino impondo-lhe o nome de Jesus. Depois enfrentou com a família a perseguição de um monarca sanguinolento, fugiu para o exílio e, na volta se escondeu numa vilazinha no norte, em Nazaré. Iniciou o filho nas tradições religiosas de seu povo e lhe transmitiu a profissão de artesão-carpinteiro. Dele se diz que era um homem justo. Depois sumiu sem deixar sinal. Apenas os apócrifos (livros tardios não aceitos pela Igreja oficial) sabem muito de José mas de forma fantasiosa e, por vezes, ridícula. Até referem que, viúvo com seis filhos, casou com Maria aos 93 anos, ficou com ela 18 anos e morreu com 111.
São José nunca teve centralidade na Igreja. Somente depois de 800 anos apareceram os primeiros sermões sobre ele. Só em 1870 foi proclamado patrono da Igreja Universal, não pelo próprio Papa, mas por um decreto da Congregação dos Ritos. Nos anos 60 o Papa João XXIII inseriu seu nome no cânone da missa.
Essa invisibilidade de São José não é sem sentido. Funda uma espiritualidade bastante esquecida pelo crstianismo oficial. Neste são os papas, os bispos e os padres que ocupama cena, falam e têm visibilidade. Mas existe um poderoso cristianismo popular, quotidiano e anónimo do qual ninguém toma nota. Nele vive a grande maioria dos cristãos, nossos pais, avós e parentes que tomam a sério o evangelho e o seguimento de Jesus. São José, pelo seu anonimato e pelo seu silêncio se insere aí dentro. Mais do que patrono da Igreja Universal é patrono da Igreja doméstica, dos irmãos e irmãs menores de Jesus. Ele é o representante da "gente boa", da "gente humilde", sepultados em seu dia-a-dia cinzento, ganhando a vida com muito trabalho e levando honradamente suas famílias pelos caminhos da honestidade. Orientam-se mais pelo sentimento profundo de Deus que por profundas doutrinas teológicas sobre Deus. Para eles, como para José, Deus não é um problema mas uma luz poderosa para os problemas.
Foi neste ambiente que Jesus cresceu. Sua relação com José a quem chamava pai, deve ter sido tão íntima que serviu de base para sentir a Deus como "Paizinho querido" (Abba) e nos transmitir essa experiência libertadora. Isso já é suficiente para sermos eternamente gratos a ele.

Leonardo Boff

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