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sexta-feira, outubro 07, 2005

O guia aborda hoje um tema fracturante 

O meu amigo Timshel resolveu, na Terra de anteontem, pegar num tema sobre o qual há muito tempo eu queria falar, mas que tenho deixado para sempre para depois, se calhar para não me chatear. É um daqueles assuntos que acende deveras a retórica nacional. É um daqueles assuntos em que a liberdade de discussão está coberta pelo manto do preconceito e está esmagada pela montanha do politicamente correcto – o casamento homossexual. Pois o Timshel resolveu escrever o que achava e como o que ele acha não é o que por aí se acha que se deve achar, o que ele achou foi acha para a uma fogueira que o Lutz acendeu e à volta da qual se sentaram a Zazie, o CA, a Sara Monteiro, a Susana, o Zé Flávio e toda aquela boa gente que costuma frequentar a tasquinha do Lutz. Felizmente não apareceu por lá nenhum daqueles alvoraçados militantes gays e a discussão esteve como não é habitual para estes lados do Caia: divertida, serena, racional. Estive até para dar a minha achega (perdoem-me esta feíssima expressão) mas quando lá cheguei já aquilo passava dos 150 comentários e não tive coragem. De modo que guardei o que queria dizer para a pacatez aqui do Guia. Eis pois algumas reflexões sobre este fastidioso tema.
Devo começar por afirmar por minha honra que, ao contrário de muitos amigos cristãos, a questão da homossexualidade não a consigo pensar dum ponto de vista religioso. Pouco me dizem aquelas pitorescas citações bíblicas, sobretudo do Antigo Testamento, tantas vezes brandidas com ferocidade. Citações umas lidas fora do contexto, outras interpretadas literalmente, outras mal intrepretadas, outras ininterpretáveis sequer. Nestas coisas da moral sexual vetero-testamentária diverte-me sempre pensar em Loth e nas suas filhas e, ainda melhor, no mítico Onan, que originou a palavra onanismo mas que, coitado, não era mais do que um adepto do coitus interruptus e bem caro pagou por isso.
Definitivamente, a questão da homossexualidade vejo-a e sinto-a muito mais à luz da lei natural ou da moral natural, seja lá o que isso fôr. Mas tenho a decência de admitir que a minha visão do que é moral natural neste caso, resulta muito da minha condição heterossexual. Em boa verdade reconheço que a homossexualidade ofende muito mais a minha estética do que a minha ética.
O que quero dizer com isto é que, contrariamente à cartilha da minha Igreja, não vejo a homossexualidade em si mesma como um pecado. Pecado é a promiscuidade, a libertinagem. A minha fé e a minha moral ofendem-se muito mais com o sexo em grupo do que com um acto homossexual consentido.
Agora não tenho a mínima dúvida de que a heterossexualidade e a homossexualidade são condições inequivocamente diferentes. Os movimentos LGBT (expressão tenebrosa) reividicam activamente o direito à diferença e tem toda a razão pois efectivamente há uma grande diferença. Podem dizer o que quiserem mas um amor heterossexual e um amor homossexual podem ser ambos magníficos, lindíssimos e puríssimos, mas são diferentes. Tem dimensões, tem origens, tem manifestações, tem potencialidades que são diferentes e muito diferentes.
Começando pela possibilidade de procriação, mesmo que uma qualquer serralharia genética a venha alargar aos homossexuais; continuando pela diferente conformidade com aquilo que culturalmente, civilizacionalmente, se foi interiorizando como normal. Mesmo que essa normalidade seja artificial, que não penso que o seja, mesmo assim, o facto é que uma relação heterossexual não pressupõe normalmente um acto de afirmação identitária de uma determinada sexualidade. Um heterossexual ama, fornica, procria sem pensar que é heterossexual (pelo menos por ora). Já um homossexual ao fazê-lo, muito dificilmente se abstrai da sua identidade sexual. Como é que eu sei isto? Bem, tenho amigos que são homossexuais e pessoas sérias e já mo disseram mas talvez a amostragem possa não ser suficientemente grande.
Não quero dizer com isto que um amor homossexual não possa ter tanta grandeza ou beleza quanto um amor heterossexual. Pode ter e muitas vezes tem. Mas são amores diferentes. Isto não é um juízo de valor nem manifestação de menosprezo. Podem não acreditar mas eu estou-me nas tintas. E reafirmo: a condição homossexual e heterossexual são diferentes como o são a condição masculina e a feminina. E viva a diferença!
Agora se são diferentes, são diferentes e daí a minha dificuldade em entender os esforços em contrário por parte de quem tem tanta preocupação identitária. Lembro-me de ter visto há uns anos na francesíssima TF1, um daqueles debates que felizmente só os franceses sabem fazer, onde estava um homem já de meia idade que ali estava na qualidade de homossexual e que dizia ser absolutamente contra os casamentos homossexuais e a adopção de crianças por homossexuais. Dizia ele que assumia por inteiro a sua opção sexual e que aceitava e exigia tudo o que daí advinha. Sendo homossexual não queria viver como se fosse heterossexual, daí não querer casar nem ter filhos adoptados. E atenção, disse uma coisa que eu retive: que muitos homossexuais sofriam a diferença não na sociedade mas no seu íntimo e que por isso queriam formatar a sociedade à sua volta para atenuarem assim o íntimo incómodo pela sua diferença. Ele não, pois tinha assumido plenamente a sua opção sexual. Foi a esse homossexual inteligente que ouvi pela primeira vez uma expressão que muito tenho usado a propósito dos tenebrosos e policiários movimentos LGBT: o proselitismo gay!
E é este o meu ponto: a luta pelos casamentos homossexuais quando as uniões de facto servem para o mesmo efeito, a luta para adopção por homossexuais são, a meu ver e tirando excepções que certamente existirão, pouco mais do que formas de luta de afirmação identitária. Muita dessa gente não são verdadeiros homossexuais, são sim maricas que querem que toda a gente seja como eles já que eles não se sentem bem não sendo como toda a gente.
Disse.

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